Questão 41 da FUVEST 2023

1ª fase

“Eu quase fui um índio sacana, como meu tio. (...) Desses índio que são índio pela metade. Ou seja, qui nem índio, nem branco, nem cholo, nem negro, nem serrano, nem costeiro, nem camponês, nem equatoriano, nem estrangeiro, nem nada. Índio sacana, claro. Índio qu’está à vista de toda gente e ninguém vê, qu’está mesminho nas ruas todos os dias, caminhando pra lá pra cá, buscando trabalho nas porta de gente rica, de jardineiro, de mensageiro, cuidador de cachorros, saloneiro, caseiro, criador de crianças, de toda classe de trabalho. Chofer. O Equador está cheinho de índio sacana assim. Desse tipo d’índio que não é nada”.

CARVALHO-NETO, Paulo de. Meu tio Atahualpa. Rio de Janeiro: Salamandra, 1978.

A expressão “índio sacana”, presente no texto, faz referência a:

  1. A
    Uma parcela da população indígena caracterizada por sua autonomia e resistência às formas pós-coloniais de dominação.
  2. B
    Um grupo social cuja inserção na sociedade equatoriana foi complexa e limitada.
  3. C
    Uma etnia que historicamente alcançou a emancipação política e social por meio da assimilação da cultura europeia.
  4. D
    Um conjunto de indivíduos de nacionalidade estrangeira cujos hábitos e costumes contrastavam com os da população local.
  5. E
    Um segmento que ganhou visibilidade por ocupar posições sociais de prestígio.
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Resolução comentada

O trecho descreve o "índio sacana" por uma série de negações: "nem índio, nem branco, nem cholo, nem negro... nem equatoriano, nem estrangeiro, nem nada". Ou seja, é alguém que não se reconhece nem é reconhecido em nenhuma categoria social ou nacional, vivendo num lugar indefinido.

O narrador também diz que ele "está à vista de toda gente e ninguém vê": é invisível socialmente, mesmo estando nas ruas todos os dias. E mostra onde ele atua: procurando trabalho "nas porta de gente rica", como jardineiro, mensageiro, caseiro, chofer, ou seja, em ocupações subalternas e mal remuneradas.

Assim, o texto retrata uma população indígena marginalizada, com inserção precária e limitada na sociedade equatoriana, sem identidade reconhecida nem prestígio.

Testando as alternativas:

  1. Autonomia e resistência não aparecem: ele busca emprego na casa dos ricos.
  2. Emancipação pela assimilação da cultura europeia contradiz o "não ser nada".
  3. Estrangeiros: o texto nega justamente que ele seja "estrangeiro" ou "equatoriano"; o termo vem de uma lista de negações.
  4. Prestígio social contradiz a invisibilidade e os trabalhos subalternos.

Sobra a descrição de um grupo de inserção complexa e limitada.

Alternativa B.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • Aatribui autonomia e resistência, mas o texto mostra dependência de trabalhos subalternos e invisibilidade.
  • Cfala em emancipação pela assimilação europeia, o que o texto não sugere; ele "não é nada".
  • Dtoma "estrangeiro" como identidade, mas o texto o nega junto com "equatoriano"; o personagem é indígena local.
  • Eafirma visibilidade e prestígio, o oposto de "está à vista de toda gente e ninguém vê".

Assuntos: interpretação de texto, identidade indígena na América Latina.

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