Questão 32 da FUVEST 2017
Mas o pecado maior contra a Civilização e o Progresso, contra o Bom Senso e o Bom Gosto e até os Bons Costumes, que estaria sendo cometido pelo grupo de regionalistas a quem se deve a ideia ou a organização deste Congresso, estaria em procurar reanimar não só a arte arcaica dos quitutes finos e caros em que se esmeraram, nas velhas casas patriarcais, algumas senhoras das mais ilustres famílias da região, e que está sendo esquecida pelos doces dos confeiteiros franceses e italianos, como a arte – popular como a do barro, a do cesto, a da palha de Ouricuri, a de piaçava, a dos cachimbos e dos santos de pau, a das esteiras, a dos ex-votos, a das redes, a das rendas e bicos, a dos brinquedos de meninos feitos de sabugo de milho, de canudo de mamão, de lata de doce de goiaba, de quenga de coco, de cabaça – que é, no Nordeste, o preparado do doce, do bolo, do quitute de tabuleiro, feito por mãos negras e pardas com uma perícia que iguala, e às vezes excede, a das sinhás brancas.
Gilberto Freyre. Manifesto regionalista (7ª ed.). Recife: FUNDAJ, Ed. Massangana, 1996.
De acordo com o texto de Gilberto Freyre, o Manifesto regionalista, publicado em 1926,
- Aopunha-se ao cosmopolitismo dos modernistas, especialmente por refutar a alteração nos hábitos alimentares nordestinos.
- Btraduzia um projeto político centralizador e antidemocrático associado ao retorno de instituições monárquicas.
- Cexaltava os valores utilitaristas do moderno capitalismo industrial, pois reconhecia a importância da tradição agrária brasileira.
- Dpreconizava a defesa do mandonismo político e da integração de brancos e negros sob a forma da democracia racial.
- Epromovia o desenvolvimento de uma cultura brasileira autêntica pelo retorno a seu passado e a suas tradições e riquezas locais.
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Resolução comentada
O texto é um trecho do Manifesto regionalista de Freyre. Ele usa ironia: o "pecado maior contra a Civilização e o Progresso" que os regionalistas estariam cometendo é, na verdade, valorizar o que a modernização e o gosto "afrancesado" deixavam de lado.
Veja o que o autor quer reanimar:
- a doçaria tradicional das velhas casas patriarcais, que vinha sendo esquecida diante dos doces de confeiteiros franceses e italianos;
- a arte popular nordestina: barro, cesto, palha, esteiras, redes, rendas, brinquedos de sabugo de milho e de cabaça;
- o trabalho de "mãos negras e pardas", com perícia que iguala ou excede a das sinhás brancas, ou seja, o reconhecimento do valor popular e mestiço.
O eixo do texto é, portanto, valorizar as tradições e os saberes locais do Nordeste como base de uma cultura brasileira autêntica, em vez de imitar modelos estrangeiros.
Testando as alternativas: a comida é apenas um exemplo entre vários, então não é o centro do texto (A). Não há defesa de monarquia nem de centralização (B). O texto não exalta o capitalismo industrial, e sim o artesanato e a tradição (C). Tampouco defende o mandonismo: o elogio às mãos negras e pardas vai no sentido oposto (D). A alternativa que sintetiza o texto é a que fala de cultura autêntica, passado, tradições e riquezas locais.
Alternativa E.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AReduz o manifesto à questão alimentar e o opõe aos modernistas, o que o trecho não diz; a comida é só um dos exemplos de tradição regional.
- BO texto não trata de centralização política nem de restauração monárquica; o foco é cultural.
- CO texto valoriza o artesanato e a tradição, não os valores utilitaristas do capitalismo industrial.
- DNada no trecho defende o mandonismo; o elogio ao trabalho de negros e pardos não equivale a defender o poder dos coronéis.
Assuntos: Manifesto regionalista, Gilberto Freyre, cultura popular nordestina.
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