Questão 28 da FUVEST 2015

1ª fase

TEXTO PARA AS QUESTÕES DE 25 A 28

Tornando da malograda espera do tigre, alcançou o capanga um casal de velhinhos, que seguiam diante dele o mesmo caminho, e conversavam acerca de seus negócios particulares. Das poucas palavras que apanhara, percebeu Jão Fera que destinavam eles uns cinquenta mil-réis, tudo quanto possuíam, à compra de mantimentos, a fim de fazer um moquirão*, com que pretendiam abrir uma boa roça. — Mas chegará, homem? perguntou a velha. — Há de se espichar bem, mulher! Uma voz os interrompeu: — Por este preço dou eu conta da roça! — Ah! É nhô Jão! Conheciam os velhinhos o capanga, a quem tinham por homem de palavra, e de fazer o que prometia. Aceitaram sem mais hesitação; e foram mostrar o lugar que estava destinado para o roçado. Acompanhou-os Jão Fera; porém, mal seus olhos descobriram entre os utensílios a enxada, a qual ele esquecera um momento no afã de ganhar a soma precisa, que sem mais deu costas ao par de velhinhos e foi-se deixando-os embasbacados.

José de Alencar, Til.

* moquirão = mutirão (mobilização coletiva para auxílio mútuo, de caráter gratuito).

Considerada no contexto histórico-social figurado no romance Til, a brusca reação de Jão Fera, narrada no final do excerto, explica-se

  1. A
    pela ambição ou ganância que, no período, caracterizava os homens livres não proprietários.
  2. B
    por sua condição de membro da Guarda Nacional, que lhe interditava o trabalho na lavoura.
  3. C
    pela indolência atribuída ao indígena, da qual era herdeiro o “bugre”.
  4. D
    pelo estigma que a escravidão fazia recair sobre o trabalho braçal.
  5. E
    pela ojeriza ao labor agrícola, inerente a sua condição de homem letrado.
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Resolução comentada

No trecho, Jão Fera é um capanga que aceita fazer a roça dos velhinhos por cinquenta mil-réis. Só que, ao ver a enxada entre os utensílios, vai embora de repente, deixando o casal "embasbacado". Ele tinha esquecido que o serviço exigia trabalho com a enxada, isto é, trabalho braçal.

O contexto é o Brasil do século XIX, sociedade escravista. Nela, o trabalho manual, sobretudo o agrícola, era associado ao escravo. Por isso, o homem livre pobre, mesmo sem propriedade, evitava esse tipo de tarefa, que lhe parecia degradante e rebaixava seu status. Jão Fera vive de outros meios (capangagem, favores, violência) e se considera acima do trabalho com a enxada. A reação brusca vem dessa ideia de desonra, e não de falta de dinheiro ou de interesse no pagamento.

Conferindo as alternativas:

  1. Ele queria a soma, tanto que a aceitou de imediato. Logo, a ganância não explica a desistência.
  2. O texto não menciona a Guarda Nacional.
  3. A questão trata de uma estrutura social, e não de uma herança étnica de indolência.
  4. Não há nenhum indício de que Jão Fera seja letrado.

A explicação é o estigma social do trabalho braçal numa sociedade escravista.

Alternativa D.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AJão Fera aceita o dinheiro de bom grado; a ganância não explica ele largar o serviço ao ver a enxada.
  • BO texto não traz nenhuma referência à Guarda Nacional, nem a proibição de trabalhar na lavoura.
  • CAtribui a recusa a uma suposta indolência indígena, explicação étnica que ignora o estigma social do trabalho na sociedade escravista.
  • EJão Fera é um capanga e nada no texto o apresenta como letrado.

Assuntos: Til, de José de Alencar, romance regionalista, trabalho e escravidão no século XIX.

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