Questão 27 da FUVEST 2015

1ª fase

TEXTO PARA AS QUESTÕES DE 25 A 28

Tornando da malograda espera do tigre, alcançou o capanga um casal de velhinhos, que seguiam diante dele o mesmo caminho, e conversavam acerca de seus negócios particulares. Das poucas palavras que apanhara, percebeu Jão Fera que destinavam eles uns cinquenta mil-réis, tudo quanto possuíam, à compra de mantimentos, a fim de fazer um moquirão*, com que pretendiam abrir uma boa roça. — Mas chegará, homem? perguntou a velha. — Há de se espichar bem, mulher! Uma voz os interrompeu: — Por este preço dou eu conta da roça! — Ah! É nhô Jão! Conheciam os velhinhos o capanga, a quem tinham por homem de palavra, e de fazer o que prometia. Aceitaram sem mais hesitação; e foram mostrar o lugar que estava destinado para o roçado. Acompanhou-os Jão Fera; porém, mal seus olhos descobriram entre os utensílios a enxada, a qual ele esquecera um momento no afã de ganhar a soma precisa, que sem mais deu costas ao par de velhinhos e foi-se deixando-os embasbacados.

José de Alencar, Til.

* moquirão = mutirão (mobilização coletiva para auxílio mútuo, de caráter gratuito).

As práticas de Jão Fera que permitem ao narrador classificá-lo como “capanga” assemelham-se, sobretudo, às da personagem citadina do

  1. A
    valentão Chico-Juca, nas Memórias de um sargento de milícias.
  2. B
    malandro Prudêncio, nas Memórias póstumas de Brás Cubas.
  3. C
    arrivista Miranda, em O cortiço.
  4. D
    agregado Zé Fernandes, em A cidade e as serras.
  5. E
    soldado amarelo, em Vidas secas.
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Resolução comentada

O texto mostra Jão Fera como um capanga: homem de coragem e força, que vive de prestar serviços pagos a outros, sem vínculo formal, e que só se dispõe a trabalhar quando precisa "ganhar a soma". Ele oferece seus serviços aos velhinhos por cinquenta mil-réis, é conhecido por cumprir o que promete e some quando vê a enxada, isto é, quando percebe que o serviço braçal não lhe convém. Em suma, o capanga é um valentão que vende sua força e vive à margem da ordem, movido pela conveniência.

Agora compare com as personagens das alternativas:

  1. Chico-Juca, em Memórias de um sargento de milícias, é o valentão do Rio de Janeiro de D. João VI, que intimida os outros pela força e tem fama de bravo. É o tipo social mais próximo do capanga, urbano e violento.
  2. Prudêncio, em Memórias póstumas, é um escravo que se torna alforriado e passa a castigar outro escravo; sua característica é a reprodução da violência, não a prestação de serviços de força.
  3. Miranda, em O cortiço, é comerciante ambicioso que busca ascensão social, o que não tem relação com o capanga.
  4. Zé Fernandes é um intelectual de ideias, sem relação com a valentia.
  5. O soldado amarelo, em Vidas secas, é um representante do poder, covarde e sem função de capanga.

Portanto, a semelhança mais direta está em Chico-Juca.

Alternativa A.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • BPrudêncio é ex-escravo que reproduz a violência sobre outro escravo, não um valentão que vende serviços de força.
  • CMiranda é comerciante arrivista, movido pela ascensão social e não pela valentia a soldo.
  • DZé Fernandes é agregado e narrador reflexivo, sem relação com violência ou capangagem.
  • EO soldado amarelo é covarde e representa a autoridade, e não um valentão que serve a particulares.

Assuntos: romantismo, personagens da literatura brasileira, José de Alencar.

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