Questão 90 da FUVEST 2014

1ª fase

TEXTO PARA AS QUESTÕES DE 86 A 90

Revelação do subúrbio

Quando vou para Minas, gosto de ficar de pé, contra a
[vidraça do carro,*
vendo o subúrbio passar.
O subúrbio todo se condensa para ser visto depressa,
com medo de não repararmos suficientemente
em suas luzes que mal têm tempo de brilhar.
A noite come o subúrbio e logo o devolve,
ele reage, luta, se esforça,
até que vem o campo onde pela manhã repontam laranjais
e à noite só existe a tristeza do Brasil.

Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo, 1940.

(*) carro: vagão ferroviário para passageiros.

Segundo o crítico e historiador da literatura Antonio Candido de Mello e Souza, justamente na década que presumivelmente corresponde ao período de elaboração do livro a que pertence o poema, o modo de se conceber o Brasil havia sofrido “alteração marcada de perspectivas”. A leitura do poema de Drummond permite concluir corretamente que, nele, o Brasil não mais era visto como país

  1. A
    agrícola (fornecedor de matéria-prima), mas como industrial (produtor de manufaturados).
  2. B
    arcaico (retardatário social e economicamente) mas, sim, percebido como moderno (equiparado aos países mais avançados).
  3. C
    provinciano (caipira, localista) mas, sim, cosmopolita (aberto aos intercâmbios globais).
  4. D
    novo (em potência, por realizar-se), mas como subdesenvolvido (marcado por pobreza e atrofia).
  5. E
    rural (sobretudo camponês), mas como suburbano (ainda desprovido de processos de urbanização).
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Resolução comentada

A questão pede que você ligue o poema à "alteração de perspectivas" na forma de ver o Brasil nos anos 1930. Antonio Candido explica essa mudança: antes, predominava a visão do Brasil como país novo, cheio de promessas, a ser realizado no futuro. Depois, passou a prevalecer a consciência do subdesenvolvimento.

No poema, o eu lírico viaja de trem rumo a Minas e observa o subúrbio:

  1. O subúrbio aparece apressado e "condensado", com luzes "que mal têm tempo de brilhar". Isso mostra uma urbanização precária e sufocada.
  2. A noite "come o subúrbio" e ele "reage, luta, se esforça". Isso mostra atrofia, um esforço que não se realiza.
  3. No fim vem o campo, onde de dia há laranjais e "à noite só existe a tristeza do Brasil". Isso mostra pobreza e melancolia, sem promessa de grandeza.

Não há entusiasmo com o futuro nem imagem de país em construção otimista. O que há é a percepção de um país pobre e travado, isto é, subdesenvolvido. Por isso o Brasil deixa de ser visto como "país novo" e passa a ser visto como subdesenvolvido.

As demais alternativas trazem ideias que o poema não sustenta: industrialização, modernidade, cosmopolitismo ou ausência de urbanização.

Alternativa D.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AO poema não mostra industrialização; o subúrbio é frágil e o campo aparece triste, sem produção de manufaturados.
  • BNão há equiparação aos países avançados; o poema expressa precariedade e tristeza, não modernidade.
  • CNão há abertura a intercâmbios globais no poema; o cenário é nacional, ligando o subúrbio ao campo.
  • EConfunde subúrbio com ausência de urbanização; o subúrbio já é um espaço urbano, ainda que precário.

Assuntos: modernismo, Drummond, Antonio Candido.

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