Questão 89 da FUVEST 2014
TEXTO PARA AS QUESTÕES DE 86 A 90
Revelação do subúrbio
Quando vou para Minas, gosto de ficar de pé, contra a
[vidraça do carro,*
vendo o subúrbio passar.
O subúrbio todo se condensa para ser visto depressa,
com medo de não repararmos suficientemente
em suas luzes que mal têm tempo de brilhar.
A noite come o subúrbio e logo o devolve,
ele reage, luta, se esforça,
até que vem o campo onde pela manhã repontam laranjais
e à noite só existe a tristeza do Brasil.
Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo, 1940.
(*) carro: vagão ferroviário para passageiros.
No poema de Drummond, a presença dos motivos da velocidade, da mecanização, da eletricidade e da metrópole configura-se como
- Auma adesão do poeta ao mito do progresso, que atravessa as letras e as artes desde o surgimento da modernidade.
- Bmanifestação do entusiasmo do poeta moderno pela industrialização por que, na época, passava o Brasil.
- Cmarca da influência da estética futurista da Antropofagia na literatura brasileira do período posterior a 1940.
- Duma incorporação, sob nova inflexão política e ideológica, de temas característicos das vanguardas que influenciaram o Modernismo antecedente.
- Euma crítica do poeta pós-modernista às alterações causadas, na percepção humana, pelo avanço indiscriminado da técnica na vida cotidiana.
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Resolução comentada
O poema é de Sentimento do mundo (1940), obra da chamada segunda geração modernista. Os motivos que a questão cita (velocidade do trem, mecanização, luzes elétricas, vida metropolitana) eram temas típicos das vanguardas europeias do início do século XX, sobretudo o futurismo, e foram exaltados na primeira fase do Modernismo brasileiro, nos anos 1920.
No entanto, Drummond não os celebra. Observe o tom do poema:
- O subúrbio "se condensa para ser visto depressa, com medo de não repararmos": a velocidade empobrece a percepção, e as luzes "mal têm tempo de brilhar".
- "A noite come o subúrbio e logo o devolve, ele reage, luta": o subúrbio aparece como algo frágil, quase uma vítima.
- O final, "a tristeza do Brasil", mostra um olhar social e crítico sobre o país.
Portanto, o poeta retoma os temas das vanguardas que influenciaram o Modernismo anterior, mas com outra inflexão: política, social e ideológica, sem o entusiasmo futurista. Isso é exatamente o que diz a alternativa D.
As demais falham: A e B pressupõem adesão e entusiasmo; C mistura futurismo com Antropofagia e ignora que ela é anterior a 1940; E trata o poeta como "pós-modernista", classificação inadequada para 1940.
Alternativa D.
Pegadinha: A alternativa A (e também B) engana quem associa velocidade e máquina a exaltação do progresso, sem notar o tom crítico e melancólico do poema.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AO poema não adere ao mito do progresso; mostra a velocidade como empobrecedora da percepção e o subúrbio como frágil.
- BAtribui ao poeta entusiasmo pela industrialização, o que o tom melancólico do poema contradiz.
- CA Antropofagia é dos anos 1920 e não é uma estética futurista; a influência "posterior a 1940" não faz sentido.
- EDrummond em 1940 pertence ao Modernismo (segunda geração), não ao pós-modernismo, e o poema não é crítica centrada na técnica indiscriminada.
Assuntos: modernismo, Drummond, vanguardas europeias.
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