Questão 64 da FUVEST 2014
Não há trabalho, nem gênero de vida no mundo mais parecido à cruz e à paixão de Cristo, que o vosso em um destes engenhos [...]. A paixão de Cristo parte foi de noite sem dormir, parte foi de dia sem descansar, e tais são as vossas noites e os vossos dias. Cristo despido, e vós despidos; Cristo sem comer, e vós famintos; Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo. Os ferros, as prisões, os açoites, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo isto se compõe a vossa imitação, que, se for acompanhada de paciência, também terá merecimento e martírio[...]. De todos os mistérios da vida, morte e ressurreição de Cristo, os que pertencem por condição aos pretos, e como por herança, são os mais dolorosos.
P. Antônio Vieira, Sermão décimo quarto. In: I. Inácio & T. Lucca (orgs.). Documentos do Brasil colonial. São Paulo: Ática, 1993, p.73-75.
A partir da leitura do texto acima, escrito pelo padre jesuíta Antônio Vieira em 1633, pode-se afirmar, corretamente, que, nas terras portuguesas da América,
- Aa Igreja Católica defendia os escravos dos excessos cometidos pelos seus senhores e os incitava a se revoltar.
- Bas formas de escravidão nos engenhos eram mais brandas do que em outros setores econômicos, pois ali vigorava uma ética religiosa inspirada na Bíblia.
- Ca Igreja Católica apoiava, com a maioria de seus membros, a escravidão dos africanos, tratando, portanto, de justificá-la com base na Bíblia.
- Dclérigos, como P. Vieira, se mostravam indecisos quanto às atitudes que deveriam tomar em relação à escravidão negra, pois a própria Igreja se mantinha neutra na questão.
- Ehavia formas de discriminação religiosa que se sobrepunham às formas de discriminação racial, sendo estas, assim, pouco significativas.
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Resolução comentada
No trecho, Vieira compara o sofrimento dos escravizados nos engenhos à paixão de Cristo: ferros, açoites, fome, nudez, maus-tratos. Ele não condena a escravidão nem chama à revolta. Pede paciência e promete que ela traz "merecimento e martírio". Ou seja, o sofrimento é apresentado como algo a ser aceito, com valor religioso, e a ordem escravista segue intacta.
Para isso, ele se apoia em imagens bíblicas, a cruz e a paixão de Cristo, que dão sentido religioso à condição dos cativos. Essa postura era a da maior parte da Igreja colonial, que aceitava a escravidão e a legitimava com argumentos religiosos, como a ideia de salvação pelo sofrimento e pela resignação.
Análise das alternativas:
- Incitar à revolta contradiz o pedido de paciência, e o texto descreve maus-tratos, não defesa dos escravos contra os senhores.
- O texto mostra o engenho como lugar de sofrimento extremo, não de escravidão branda.
- O apoio majoritário da Igreja, com justificativa bíblica, combina com o sermão.
- Vieira não demonstra indecisão, e a Igreja não era neutra.
- O texto trata da condição dos "pretos", o que indica discriminação racial, e não a torna pouco significativa.
Alternativa C.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AVieira pede paciência e resignação, não revolta; a Igreja não incitava os escravos a se rebelar.
- BO texto descreve os engenhos como lugar de maus-tratos extremos, sem nenhuma brandura.
- DVieira não parece indeciso, e a Igreja não era neutra: aceitava e justificava a escravidão.
- EO sermão fala dos "pretos" e de sua condição, o que evidencia a discriminação racial, não a torna secundária.
Assuntos: escravidão colonial, Igreja e escravidão, Antônio Vieira.
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