Questão 77 da FUVEST 2013

1ª fase

Texto para as questões de 74 a 77

V – O samba

À direita do terreiro, adumbra-se* na escuridão um maciço de construções, ao qual às vezes recortam no azul do céu os trêmulos vislumbres das labaredas fustigadas pelo vento.

(...)

É aí o quartel ou quadrado da fazenda, nome que tem um grande pátio cercado de senzalas, às vezes com alpendrada corrida em volta, e um ou dois portões que o fecham como praça d’armas.

Em torno da fogueira, já esbarrondada pelo chão, que ela cobriu de brasido e cinzas, dançam os pretos o samba com um frenesi que toca o delírio. Não se descreve, nem se imagina esse desesperado saracoteio, no qual todo o corpo estremece, pula, sacode, gira, bamboleia, como se quisesse desgrudar-se.

Tudo salta, até os crioulinhos que esperneiam no cangote das mães, ou se enrolam nas saias das raparigas. Os mais taludos viram cambalhotas e pincham à guisa de sapos em roda do terreiro. Um desses corta jaca no espinhaço do pai, negro fornido, que não sabendo mais como desconjuntar-se, atirou consigo ao chão e começou de rabanar como um peixe em seco. (...)

José de Alencar, Til.

(*) “adumbra-se” = delineia-se, esboça-se.

Considerada no contexto histórico a que se refere Til, a desenvoltura com que os escravos, no excerto, se entregam à dança é representativa do fato de que

  1. A
    a escravidão, no Brasil, tal como ocorreu na América do Norte e no Caribe, foi branda.
  2. B
    se permitia a eles, em ocasiões especiais e sob vigilância, que festejassem a seu modo.
  3. C
    teve início nas fazendas de café o sincretismo das culturas negra e branca, que viria a caracterizar a cultura brasileira.
  4. D
    o narrador entendia que o samba de terreiro era, em realidade, um ritual umbandista disfarçado.
  5. E
    foi a generalização, entre eles, do alcoolismo, que tornou antieconômica a exploração da mão de obra escrava nos cafezais paulistas.
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Resolução comentada

O trecho de Til descreve o samba no pátio cercado de senzalas (o "quartel" da fazenda), com os escravos dançando em volta da fogueira. O que a questão pede é o que essa cena revela sobre a escravidão da época, e não uma conclusão sobre a dança em si.

Para isso, vale lembrar a prática comum nas fazendas oitocentistas: os senhores toleravam, e às vezes até estimulavam, festas e batuques em datas especiais (fim de colheita, dias santos), sempre dentro da propriedade, sob controle e vigilância. Isso servia de válvula de escape e ajudava a manter a ordem. A cena de Alencar é essa: a dança ocorre no espaço fechado, "como praça d'armas", isto é, cercado e controlado.

Agora, alternativa por alternativa:

  1. A escravidão brasileira não foi branda, e a comparação com América do Norte e Caribe não cabe. Uma festa tolerada não prova brandura.
  2. A permissão de festejar a seu modo, em ocasiões especiais e sob vigilância, é exatamente o que o pátio cercado e a cena sugerem.
  3. O sincretismo cultural é anterior às fazendas de café e não está em discussão no trecho.
  4. O narrador não fala de umbanda, religião do século XX.
  5. Nada no texto trata de alcoolismo nem de inviabilidade econômica do trabalho escravo.

Alternativa B.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AGeneraliza a partir de uma festa tolerada e chama de branda uma escravidão que foi violenta; a comparação com outras regiões não tem base no texto.
  • CO sincretismo é anterior às fazendas de café e o trecho não trata da origem dele.
  • DO narrador descreve uma dança frenética, sem falar de ritual religioso; a umbanda é posterior à época do romance.
  • EAlcoolismo e antieconomicidade do trabalho escravo não aparecem no trecho nem se deduzem dele.

Assuntos: literatura romântica, José de Alencar, escravidão no Brasil.

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