Questão 76 da FUVEST 2013
Texto para as questões de 74 a 77
V – O samba
À direita do terreiro, adumbra-se* na escuridão um maciço de construções, ao qual às vezes recortam no azul do céu os trêmulos vislumbres das labaredas fustigadas pelo vento.
(...)
É aí o quartel ou quadrado da fazenda, nome que tem um grande pátio cercado de senzalas, às vezes com alpendrada corrida em volta, e um ou dois portões que o fecham como praça d’armas.
Em torno da fogueira, já esbarrondada pelo chão, que ela cobriu de brasido e cinzas, dançam os pretos o samba com um frenesi que toca o delírio. Não se descreve, nem se imagina esse desesperado saracoteio, no qual todo o corpo estremece, pula, sacode, gira, bamboleia, como se quisesse desgrudar-se.
Tudo salta, até os crioulinhos que esperneiam no cangote das mães, ou se enrolam nas saias das raparigas. Os mais taludos viram cambalhotas e pincham à guisa de sapos em roda do terreiro. Um desses corta jaca no espinhaço do pai, negro fornido, que não sabendo mais como desconjuntar-se, atirou consigo ao chão e começou de rabanar como um peixe em seco. (...)
José de Alencar, Til.
(*) “adumbra-se” = delineia-se, esboça-se.
Ao comentar o romance Til e, inclusive, a cena do capítulo “O samba”, aqui reproduzida, Araripe Jr., parente do autor e estudioso de sua obra, observou que esses são provavelmente os textos em que Alencar “mais se quis aproximar dos padrões” de uma “nova escola”, deixando, neles, reconhecível que, “no momento” em que os escreveu, “algum livro novo o impressionara, levando-o pelo estímulo até superfetar* a sua verdadeira índole de poeta”. Alguns dos procedimentos estilísticos empregados na cena aqui reproduzida indicam que a “nova escola” e o “livro novo” a que se refere o crítico pertencem ao que historiadores da literatura chamaram de
(*) “superfetar” = exceder, sobrecarregar, acrescentar-se (uma coisa a outra).
- ARomantismo-Condoreirismo.
- BIdealismo-Determinismo.
- CRealismo-Naturalismo.
- DParnasianismo-Simbolismo.
- EPositivismo-Impressionismo.
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Resolução comentada
O trecho descreve o samba dos escravizados com detalhes físicos, quase zoológicos: o corpo "estremece, pula, sacode, gira, bamboleia", o pai "rabana como um peixe em seco", as crianças "pincham à guisa de sapos". Há também uma descrição minuciosa do ambiente (o quadrado da fazenda, as senzalas, o pátio cercado).
Esses procedimentos são típicos da escola realista-naturalista, que:
- Observa e descreve de forma detalhada o ambiente e os costumes, de maneira objetiva e quase documental.
- Enfatiza o corpo, o instinto e o movimento físico, não o sentimento idealizado.
- Compara pessoas a animais, o que revela uma visão determinista do comportamento humano, ligado ao instinto.
Alencar é um autor romântico, e por isso Araripe Jr. diz que ele "superfetou" (acrescentou em excesso) a sua índole de poeta ao se aproximar da "nova escola". Ou seja, ele carregou no estilo de uma tendência que não era a dele.
As demais opções não combinam com o trecho: o Condoreirismo é a poesia social de tom grandiloquente, o Parnasianismo e o Simbolismo são escolas da poesia, e o Positivismo é uma corrente filosófica, não literária.
Alternativa C.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AO Romantismo é a própria escola de Alencar, e o Condoreirismo é poesia social de tom grandioso, não a descrição crua do trecho.
- BIdealismo é oposto à descrição objetiva e animalizada do corpo; só o Determinismo se aproximaria, e não forma par com ele.
- DParnasianismo e Simbolismo são movimentos poéticos de culto à forma ou de sugestão, sem relação com essa prosa descritiva.
- EPositivismo é corrente filosófica, e o Impressionismo trabalha sensações, não a descrição física e zoomórfica do trecho.
Assuntos: realismo-naturalismo, José de Alencar, estilo e linguagem.
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