Questão 70 da FUVEST 2011

1ª fase

Texto para as questões de 70 a 74

Todo o barbeiro é tagarela, e principalmente quando tem pouco que fazer; começou portanto a puxar conversa com o freguês. Foi a sua salvação e fortuna. O navio a que o marujo pertencia viajava para a Costa e ocupava-se no comércio de negros; era um dos combóis que traziam fornecimento para o Valongo, e estava pronto a largar. — Ó mestre! disse o marujo no meio da conversa, você também não é sangrador? — Sim, eu também sangro... — Pois olhe, você estava bem bom, se quisesse ir conosco... para curar a gente a bordo; morre-se ali que é uma praga. — Homem, eu da cirurgia não entendo muito... — Pois já não disse que sabe também sangrar? — Sim... — Então já sabe até demais. No dia seguinte saiu o nosso homem pela barra fora: a fortuna tinha-lhe dado o meio, cumpria sabê-lo aproveitar; de oficial de barbeiro dava um salto mortal a médico de navio negreiro; restava unicamente saber* fazer render a nova posição. Isso ficou por sua conta. Por um feliz acaso logo nos primeiros dias de viagem adoeceram dois marinheiros; chamou-se o médico; ele fez tudo o que sabia... sangrou os doentes, e em pouco tempo estavam bons, perfeitos. Com isto ganhou imensa reputação, e começou a ser estimado. Chegaram com feliz viagem ao seu destino; tomaram o seu carregamento de gente, e voltaram para o Rio. Graças à lanceta do nosso homem, nem um só negro morreu, o que muito contribuiu para aumentar-lhe a sólida reputação de entendedor do riscado.

Manuel Antônio de Almeida,
Memórias de um sargento de milícias.

Das seguintes afirmações acerca de diferentes elementos linguísticos do texto, a única correta é:

  1. A
    A expressão sublinhada em “para curar a gente a bordo” (L. 12) deve ser entendida como pronome de tratamento de uso informal.
  2. B
    A fórmula de tratamento (L. 14) com que o barbeiro se dirige ao marujo mantém o tom cerimonioso do início do diálogo.
  3. C
    O destaque gráfico da palavra “muito” (L. 14) produz um efeito de sentido que é reforçado pelas reticências.
  4. D
    O pronome possessivo usado nos trechos “saiu o nosso homem” (L. 18) e “lanceta do nosso homem” (L. 30) configura o chamado plural de modéstia.
  5. E
    A palavra “fortuna”, tal como foi empregada na linha 19, pode ser substituída por “bens”, sem prejuízo para o sentido.
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Resolução comentada

Vamos testar cada afirmação contra o texto.

No trecho "Homem, eu da cirurgia não entendo muito...", o barbeiro diz que não entende "muito" de cirurgia. O destaque (itálico ou negrito) põe ênfase na palavra. Ela funciona como eufemismo irônico, porque na verdade ele não entende nada. As reticências reforçam essa ideia: marcam hesitação e deixam o sentido incompleto, sugerindo que ele está escondendo a própria ignorância. Por isso o destaque gráfico e as reticências trabalham no mesmo sentido, como diz a alternativa C.

Agora, as outras:

  • "a gente" em "curar a gente a bordo" significa "as pessoas, a tripulação", um substantivo com sentido genérico. Não é pronome de tratamento.
  • "Ó mestre!" e "você" indicam tom familiar e informal, e não cerimonioso.
  • "O nosso homem" é o narrador se referindo à personagem, e inclui o leitor na história. O plural de modéstia seria o autor falando de si mesmo no plural.
  • "Fortuna" na linha 19 quer dizer "sorte, acaso" ("a fortuna tinha-lhe dado o meio"). Não quer dizer "bens" ou riqueza.

Alternativa C.

Pegadinha: A alternativa E engana quem lê "fortuna" só no sentido mais comum, de riqueza, sem ver que o contexto pede "sorte".

Por que as outras alternativas estão erradas

  • A"a gente" equivale a "as pessoas" (a tripulação), substantivo genérico, e não pronome de tratamento.
  • B"Ó mestre" e "você" marcam tratamento informal e familiar, não cerimonioso.
  • D"Nosso" é o narrador envolvendo o leitor na narrativa, não plural de modéstia.
  • E"Fortuna" significa sorte ou acaso nesse contexto, e não riqueza ou bens.

Assuntos: interpretação de texto, semântica, pronomes e formas de tratamento.

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