Questão 28 da FUVEST 2010
Texto para as questões 28 e 29
[José Dias] Teve um pequeno legado no testamento, uma apólice e quatro palavras de louvor. Copiou as palavras, encaixilhou-as e pendurou-as no quarto, por cima da cama. “Esta é a melhor apólice”, dizia ele muita vez. Com o tempo, adquiriu certa autoridade na família, certa audiência, ao menos; não abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo, era amigo, não direi ótimo, mas nem tudo é ótimo neste mundo. E não lhe suponhas alma subalterna; as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole. A roupa durava-lhe muito; ao contrário das pessoas que enxovalham depressa o vestido novo, ele trazia o velho escovado e liso, cerzido, abotoado, de uma elegância pobre e modesta. Era lido, posto que de atropelo, o bastante para divertir ao serão e à sobremesa, ou explicar algum fenômeno, falar dos efeitos do calor e do frio, dos polos e de Robespierre. Contava muita vez uma viagem que fizera à Europa, e confessava que a não sermos nós, já teria voltado para lá; tinha amigos em Lisboa, mas a nossa família, dizia ele, abaixo de Deus, era tudo.
Machado de Assis, Dom Casmurro.
No texto, o narrador diz que José Dias “sabia opinar obedecendo”. Considerada no contexto da obra, essa característica da personagem é motivada, principalmente, pelo fato de José Dias ser
- Aum homem culto, porém autodidata.
- Bhomeopata, mas usuário da alopatia.
- Cpessoa de opiniões inflexíveis, mas também um homem naturalmente cortês.
- Dum homem livre, mas dependente da família proprietária.
- Ecatólico praticante e devoto, porém perverso.
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Resolução comentada
A expressão "sabia opinar obedecendo" descreve alguém que dá opinião sem contrariar ninguém, ou seja, que tem cuidado para não desagradar. Isso indica dependência: José Dias é um agregado da família de Bentinho, vive na casa e de seus favores, e por isso precisa medir cada palavra.
O próprio trecho reforça essa leitura de duas formas:
- O narrador diz que as cortesias de José Dias "vinham antes do cálculo que da índole". Ou seja, a cortesia é interesse, não traço natural de caráter.
- A personagem chama a família de "tudo, abaixo de Deus" e diz que, não fosse por ela, já teria voltado para a Europa. Ele permanece por vínculo de dependência.
Na condição social do romance, o agregado é um homem livre, sem escravidão e sem contrato de trabalho, mas sem propriedade nem renda própria. Sua sobrevivência e sua posição dependem da boa vontade dos proprietários. Por isso ele opina obedecendo.
As demais alternativas falam de outras características da personagem: a cultura de atropelo não explica a obediência, e a homeopatia é um detalhe do romance sem relação com o comportamento. Só a condição de homem livre dependente da família proprietária explica a cautela.
Alternativa D.
Pegadinha: A alternativa C engana porque o texto fala em cortesias, mas o narrador diz que elas vêm do cálculo e não da índole.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AA cultura superficial de José Dias existe, mas não explica a cautela ao opinar; o motivo é a dependência social.
- BA homeopatia é traço pitoresco da personagem e não tem relação com o ato de opinar obedecendo.
- CO texto diz que a cortesia vem do cálculo e não da índole, contrariando o 'naturalmente cortês'.
- ENão há base no texto nem na obra para tratá-lo como devoto perverso, e isso não motiva a obediência.
Assuntos: Dom Casmurro, Machado de Assis, agregado e dependência social.
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