Questão 24 da FUVEST 2010

1ª fase

Texto para as questões de 22 a 25

Desde pequeno, tive tendência para personificar as coisas. Tia Tula, que achava que mormaço fazia mal, sempre gritava: “Vem pra dentro, menino, olha o mormaço!” Mas eu ouvia o mormaço com M maiúsculo. Mormaço, para mim, era um velho que pegava crianças! Ia pra dentro logo. E ainda hoje, quando leio que alguém se viu perseguido pelo clamor público, vejo com estes olhos o Sr. Clamor Público, magro, arquejante, de preto, brandindo um guarda-chuva, com um gogó protuberante que se abaixa e levanta no excitamento da perseguição. E já estava devidamente grandezinho, pois devia contar uns trinta anos, quando me fui, com um grupo de colegas, a ver o lançamento da pedra fundamental da ponte Uruguaiana-Libres, ocasião de grandes solenidades, com os presidentes Justo e Getúlio, e gente muita, tanto assim que fomos alojados os do meu grupo num casarão que creio fosse a Prefeitura, com os demais jornalistas do Brasil e Argentina. Era como um alojamento de quartel, com breve espaço entre as camas e todas as portas e janelas abertas, tudo com os alegres incômodos e duvidosos encantos de uma coletividade democrática. Pois lá pelas tantas da noite, como eu pressentisse, em meu entredormir, um vulto junto à minha cama, sentei-me estremunhado* e olhei atônito para um tipo de chiru*, ali parado, de bigodes caídos, pala pendente e chapéu descido sobre os olhos. Diante da minha muda interrogação, ele resolveu explicar-se, com a devida calma: — Pois é! Não vê que eu sou o sereno...

Mário Quintana, As cem melhores crônicas brasileiras.

*Glossário:
estremunhado: mal acordado.
chiru: que ou aquele que tem pele morena, traços acaboclados (regionalismo: Sul do Brasil).

Considerando que “silepse é a concordância que se faz não com a forma gramatical das palavras, mas com seu sentido, com a ideia que elas representam”, indique o fragmento em que essa figura de linguagem se manifesta.

  1. A
    “olha o mormaço”.
  2. B
    “pois devia contar uns trinta anos”.
  3. C
    “fomos alojados os do meu grupo”.
  4. D
    “com os demais jornalistas do Brasil”.
  5. E
    “pala pendente e chapéu descido sobre os olhos”.
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Resolução comentada

Silepse é a concordância feita com a ideia, e não com a forma gramatical. Por isso, procuramos um trecho em que o verbo ou o adjetivo não concorda com a palavra escrita, mas com o sentido dela.

No trecho “quando me fui, com um grupo de colegas, a ver [...] que fomos alojados os do meu grupo”, o sujeito é “os do meu grupo”, que está na 3ª pessoa do plural. Pela regra gramatical, o verbo deveria ser “foram alojados”.

Mas o narrador faz parte do grupo. Ele usa “fomos”, na 1ª pessoa do plural, porque concorda com a ideia de que ele está incluído. Essa é a silepse de pessoa.

Os outros trechos não apresentam esse desvio:

  1. “olha o mormaço” é um imperativo comum, concordando com “mormaço”, que está implícito como objeto da advertência.
  2. “devia contar uns trinta anos” tem concordância regular, com sujeito "eu" oculto e verbo no singular.
  3. “os demais jornalistas do Brasil” e “pala pendente e chapéu descido” têm concordância nominal regular.

Portanto, só em “fomos alojados os do meu grupo” a concordância segue o sentido.

Alternativa C.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • A"olha" é imperativo regular, concordando com o interlocutor, sem concordância ideológica.
  • B"devia contar" concorda normalmente com o sujeito "eu" oculto, sem silepse.
  • D"demais jornalistas" é concordância nominal regular, sem silepse.
  • E"pendente" e "descido" concordam com "pala" e "chapéu" normalmente.

Assuntos: silepse, concordância verbal, figuras de linguagem.

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