Questão 23 da FUVEST 2009

1ª fase

Texto para as questões de 21 a 23

Assim se explicam a minha estada debaixo da janela de Capitu e a passagem de um cavaleiro, um dandy, como então dizíamos. Montava um belo cavalo alazão, firme na sela, rédea na mão esquerda, a direita à cinta, botas de verniz, figura e postura esbeltas: a cara não me era desconhecida. Tinham passado outros, e ainda outros viriam atrás; todos iam às suas namoradas. Era uso do tempo namorar a cavalo. Relê Alencar: “Porque um estudante (dizia um dos seus personagens de teatro de 1858) não pode estar sem estas duas coisas, um cavalo e uma namorada”. Relê Álvares de Azevedo. Uma das suas poesias é destinada a contar (1851) que residia em Catumbi, e, para ver a namorada no Catete, alugara um cavalo por três mil-réis...

Machado de Assis. Dom Casmurro.

Considerando-se o excerto no contexto da obra a que pertence, pode-se afirmar corretamente que as referências a Alencar e a Álvares de Azevedo revelam que, em Dom Casmurro, Machado de Assis

  1. A
    expôs, embora tardiamente, o seu nacionalismo literário e sua conseqüente recusa de leituras estrangeiras.
  2. B
    negou ao Romantismo a capacidade de referir-se à realidade, tendo em vista o hábito romântico de tudo idealizar e exagerar.
  3. C
    recusou, finalmente, o Realismo, para começar o retorno às tradições românticas que irá caracterizar seus últimos romances.
  4. D
    declarou que o passado não tem relação com o presente e que, portanto, os escritores de outras épocas não mais merecem ser lidos.
  5. E
    utilizou, como em outras obras suas, elementos do legado de seus predecessores locais, alterando-lhes, entretanto, contexto e significado.
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Resolução comentada

O narrador, Bentinho já velho, lembra um episódio da juventude: ele parado sob a janela de Capitu e um dândi passando a cavalo. Para mostrar que aquilo era comum na época, cita Alencar (teatro, 1858) e Álvares de Azevedo (poesia, 1851), dois nomes do Romantismo brasileiro.

O ponto central é como Machado trata esses autores. Ele não os rejeita nem os ridiculariza. Usa-os como documento dos costumes do tempo ("era uso do tempo namorar a cavalo"), mas dentro de um romance realista, narrado por alguém que reconstrói o passado de forma parcial e duvidosa. Assim, o material romântico (namoro, cavalo, estudante apaixonado) aparece deslocado: serve de pano de fundo a uma história de ciúme, dúvida e ambiguidade, muito distante do idealismo romântico.

Assim, Machado aproveita a herança literária local e muda o contexto e o significado dela. É o que diz a alternativa E.

Os outros itens erram ao atribuir a Machado nacionalismo radical, negação do Romantismo, abandono do Realismo ou desprezo pelo passado. Nada disso está no trecho nem na obra.

Alternativa E.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AAs citações são de autores brasileiros e não tratam de recusar leituras estrangeiras; Machado não defende esse nacionalismo.
  • BO trecho usa Alencar e Azevedo como testemunhos dos costumes da época, não nega que o Romantismo fale da realidade.
  • CDom Casmurro é obra realista e não marca retorno ao Romantismo; a referência é irônica e contextualizada.
  • DMachado recorre ao passado e aos escritores anteriores ("Relê Alencar"), sugerindo que ainda valem a leitura.

Assuntos: Dom Casmurro, Romantismo e Realismo, intertextualidade.

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