Questão 43 da FUVEST 2008
Texto para as questões de 43 a 45
S. Paulo, 13-XI-42
Murilo
São 23 horas e estou honestissimamente em casa, imagine! Mas é doença que me prende, irmão pequeno. Tomei com uma gripe na semana passada, depois, desensarado, com uma chuva, domingo último, e o resultado foi uma sinusitezinha infernal que me inutilizou mais esta semana toda. E eu com tanto trabalho! Faz quinze dias que não faço nada, com o desânimo de após-gripe, uma moleza invencível, e as dores e tratamento atrozes. Nesta noitinha de hoje me senti mais animado e andei trabalhandinho por aí. (...)
Quanto a suas reservas a palavras do poema que lhe mandei, gostei da sua habilidade em pegar todos os casos “propositais”. Sim senhor, seu poeta, você até está ficando escritor e estilista. Você tem toda a razão de não gostar do “nariz furão”, de “comichona”, etc. Mas lhe juro que o gosto consciente aí é da gente não gostar sensitivamente. As palavras são postas de propósito pra não gostar, devido à elevação declamatória do coral que precisa ser um bocado bárbara, brutal, insatisfatória e lancinante. Carece botar um pouco de insatisfação no prazer estético, não deixar a coisa muito bem-feitinha.(...) De todas as palavras que você recusou só uma continua me desagradando “lar fechadinho”, em que o carinhoso do diminutivo é um desfalecimento no grandioso do coral.
Mário de Andrade, Cartas a Murilo Miranda.
“... estou honestissimamente em casa, imagine! Mas é doença que me prende, irmão pequeno.”
No trecho acima, o termo grifado indica que o autor da carta pretende
- Arevelar a acentuada sinceridade com que se dirige ao leitor.
- Bdescrever o lugar onde é obrigado a ficar em razão da doença.
- Cdemarcar o tempo em que permanece impossibilitado de sair.
- Dusar a doença como pretexto para sua voluntária inatividade.
- Eenfatizar sua forçada resignação com a permanência em casa.
Reportar erro na questão
Resolução comentada
O termo "honestissimamente" é um advérbio de modo formado de "honesto" + sufixo de superlativo (-íssimo) + "-mente". O autor o usa de modo brincalhão e exagerado, como recurso de informalidade e ironia.
Para entender o sentido, observe o contexto. Mário de Andrade diz que está em casa às 23 horas, algo incomum para ele, que vive ocupado e saindo à noite. Ele diz "imagine!" e depois explica: "é doença que me prende".
Assim, "honestissimamente" significa que ele está em casa de modo "honesto", isto é, comportado, como quem fica em casa como deveria, mas não por escolha: a doença o obriga. O exagero enfatiza a situação inusitada e a resignação forçada.
- Não se trata de sinceridade com o leitor: o advérbio modifica "em casa", não o ato de escrever.
- Não descreve o lugar, e sim a maneira de estar nele.
- Não marca tempo: a palavra não indica duração.
- Não há pretexto: ele lamenta a inatividade ("tanto trabalho!", "me inutilizou").
- Ele enfatiza que a permanência em casa é forçada, imposta pela doença, e a aceita com resignação.
Alternativa E.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AConfunde "honestamente" com sinceridade na comunicação; o advérbio qualifica o estar em casa, não a fala.
- BO advérbio é de modo, não descreve o lugar; "em casa" já nomeia o local.
- CO termo não indica tempo nem duração da impossibilidade de sair.
- DContraria o texto: ele lamenta a inatividade e o muito trabalho, não a busca como desculpa.
Assuntos: interpretação de texto, advérbio de modo, expressividade da linguagem.
Reportar erro na resolução
Ver como caiu na prova