Questão 66 da FUVEST 2007

1ª fase

Texto para as questões de 65 a 67

Sou feliz pelos amigos que tenho. Um deles muito sofre pelo meu descuido com o vernáculo. Por alguns anos ele sistematicamente me enviava missivas eruditas com precisas informações sobre as regras da gramática, que eu não respeitava, e sobre a grafia correta dos vocábulos, que eu ignorava. Fi-lo sofrer pelo uso errado que fiz de uma palavra no último “Quarto de Badulaques”. Acontece que eu, acostumado a conversar com a gente das Minas Gerais, falei em “varreção” – do verbo “varrer”. De fato, tratava-se de um equívoco que, num vestibular, poderia me valer uma reprovação. Pois o meu amigo, paladino da língua portuguesa, se deu ao trabalho de fazer um xerox da página 827 do dicionário (...). O certo é “varrição”, e não “varreção”. Mas estou com medo de que os mineiros da roça façam troça de mim, porque nunca os ouvi falar de “varrição”. E se eles rirem de mim não vai me adiantar mostrar-lhes o xerox da página do dicionário (...). Porque para eles não é o dicionário que faz a língua. É o povo. E o povo, lá nas montanhas de Minas Gerais, fala “varreção”, quando não “barreção”. O que me deixa triste sobre esse amigo oculto é que nunca tenha dito nada sobre o que eu escrevo, se é bonito ou se é feio. Toma a minha sopa, não diz nada sobre ela, mas reclama sempre que o prato está rachado.

Rubem Alves
http://rubemalves.uol.com.br/quartodebadulaques

O amigo é chamado de “paladino da língua portuguesa” porque

  1. A
    costuma escrever cartas em que aponta incorreções gramaticais do autor.
  2. B
    sofre com os constantes descuidos dos leitores de “Quarto de Badulaques”.
  3. C
    julga igualmente válidas todas as variedades da língua portuguesa.
  4. D
    comenta criteriosamente os conteúdos dos textos que o autor publica.
  5. E
    é tolerante com os equívocos que poderiam causar reprovação no vestibular.
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Resolução comentada

"Paladino" é o defensor ardoroso de uma causa, como um cavaleiro que luta por ela. Aqui, a ironia do autor chama o amigo de "paladino da língua portuguesa" porque ele defende a norma culta e a correção gramatical.

O texto mostra como isso aparece na prática:

  1. O amigo enviava, por anos, "missivas eruditas" (cartas) com informações sobre as regras da gramática e a grafia correta das palavras.
  2. Diante do uso de "varreção", ele fez um xerox da página 827 do dicionário para provar que o certo é "varrição".
  3. No final, o autor se queixa de que o amigo só aponta o "prato rachado" (os erros) e nunca comenta se o texto é bonito ou feio.

Portanto, o amigo é "paladino" por zelar pela norma, corrigindo os deslizes do autor em cartas. Isso corresponde à alternativa A.

A alternativa D diz o contrário do que o autor lamenta: o amigo não comenta o conteúdo dos textos. As demais atribuem ao amigo atitudes que não aparecem no texto.

Alternativa A.

Pegadinha: A alternativa D engana por parecer uma qualidade de crítico, mas contraria a queixa final do autor sobre o amigo nunca comentar o conteúdo.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • BInverte a relação: quem descuida do vernáculo é o autor, e o amigo sofre com isso, não com descuidos dos leitores.
  • CO amigo defende a norma do dicionário; quem valoriza a fala popular das variedades é o autor.
  • DO autor lamenta justamente que o amigo nunca comente se o texto é bonito ou feio, só os erros.
  • EO amigo é rigoroso, não tolerante; ele corrige até o erro que poderia reprovar no vestibular.

Assuntos: interpretação de texto, norma culta e variação linguística.

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