PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 19 da FUVEST 2006
Texto-base das questões 17 a 20
É impossível colocar em série exata os fatos da infância porque há aqueles que já acontecem permanentes, que vêm para ficar e doer, que nunca mais são esquecidos, que são sempre trazidos tempo afora, como se fossem dagora. É a carga. Há os outros, miúdos fatos, incolores e quase sem som – que mal se deram, a memória os atira nos abismos do esquecimento. Mesmo próximos eles viram logo passado remoto. Surgem às vezes, na lembrança, como se fossem uma incongruência. Só aparentemente sem razão, porque não há associação de idéias que seja ilógica. O que assim parece, em verdade, liga-se e harmoniza-se no subconsciente pelas raízes subterrâneas – raízes lógicas! – de que emergem os pequenos caules isolados – aparentemente ilógicos! só aparentemente! – às vezes chegados à memória vindos do esquecimento, que é outra função ativa dessa mesma memória.
Pedro Nava, Baú de ossos.
O que Pedro Nava afirma no final do texto ajuda a compreender o título do livro Esquecer para lembrar, de Carlos Drummond de Andrade, título que contém
- Aum paradoxo apenas aparente, já que designa uma das operações próprias da memória.
- Buma contradição insuperável, justificada apenas pelo valor poético que alcança.
- Cuma explicação para a dificuldade de se organizar de modo sistemático os fatos lembrados.
- Duma fina ironia, pois a antítese entre os dois verbos dá a entender o inverso do que nele se afirma.
- Euma metáfora, já que o tempo do esquecimento e o tempo da lembrança não podem ser simultâneos.
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Resolução comentada
Nava afirma, no fim do trecho, que o esquecimento "é outra função ativa dessa mesma memória". Ou seja, esquecer não é o oposto da memória: é uma das operações dela. Os fatos que parecem perdidos continuam ligados no subconsciente por "raízes lógicas" e podem voltar à lembrança, "chegados à memória vindos do esquecimento".
A partir disso, o título de Drummond, Esquecer para lembrar, junta dois verbos que parecem opostos. Isso é um paradoxo: uma ideia aparentemente contraditória.
Porém, pela explicação de Nava, a contradição é só aparente. O que foi esquecido fica guardado e depois emerge, então esquecer faz parte do processo de lembrar.
Confira o que cada alternativa diz:
- A contradição é aparente e o esquecimento é uma função da memória. Isso bate com o texto.
- Uma contradição "insuperável" é negada pelo texto, que mostra a lógica oculta.
- O trecho final não trata da dificuldade de organizar os fatos, e sim da lógica do esquecimento.
- Não há ironia, pois o título não sugere o inverso do que diz.
- Não é metáfora, e o texto não fala em tempos incompatíveis.
Alternativa A.
Pegadinha: A alternativa B engana por reconhecer a contradição entre os verbos, mas a chama de insuperável, quando o texto de Nava mostra que ela é só aparente.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BChama a contradição de insuperável, mas o texto mostra que ela é só aparente, pois o esquecimento é função da memória.
- CA dificuldade de pôr os fatos em série aparece no início do texto, não no trecho final, que explica a lógica do esquecimento.
- DNão há ironia: o título afirma o que quer dizer, sem sugerir o inverso.
- EClassifica como metáfora e afirma uma incompatibilidade de tempos que o texto não defende; esquecer e lembrar são operações de uma mesma memória.
Assunto: Figuras de pensamento: antítese, paradoxo, hipérbole, eufemismo e personificação.
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