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Questão 12 da FUVEST 2006

1ª fase · Literatura: Fernando Pessoa e a literatura portuguesa do século XX

Texto para a questão 12

Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.

Alberto Caeiro, Poesia.

Considerando-se este poema no contexto das tendências dominantes da poesia de Caeiro, pode-se afirmar que, neste texto, o afastamento da festa de São João é vivido pelo eu-lírico como

  1. A
    oportunidade de manifestar seu desapreço pelas festividades que mesclam indevidamente o sagrado e o profano.
  2. B
    ânsia de integração em uma sociedade que o rejeita por causa de sua excentricidade e estranheza.
  3. C
    uma ocasião de criticar a persistência de costumes tradicionais, remanescentes no Portugal do Modernismo.
  4. D
    frustração, uma vez que não experimenta as emoções profundas nem as reflexões filosóficas que tanto aprecia.
  5. E
    reconhecimento de que só tem realidade efetiva o que corresponde à experiência dos próprios sentidos.
Escolha uma alternativa para conferir o gabarito.
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Resolução comentada

Caeiro, o heterônimo "mestre" de Pessoa, defende que só existe o que é percebido diretamente pelos sentidos: "pensar é estar doente dos olhos", as coisas são o que são, sem metafísica nem sentimentalismo.

No poema, isso aparece em passos claros:

  1. "Porque há S. João onde o festejam": a festa só existe onde é vivida e percebida. Para quem está fora, ela não é uma realidade plena.
  2. "Do lado de cá, eu sem noite de S. João": o eu-lírico não vive a festa, então para ele ela não existe de fato.
  3. O que lhe chega é só o que os sentidos captam: "sombra de luz de fogueiras" (visão), "ruído de gargalhadas" e "baques dos saltos" (audição), "um grito casual" (audição).
  4. O grito é de "quem não sabe que eu existo": cada um tem a realidade que seus sentidos alcançam, e não há lamento nem crítica nisso.

O tom é de constatação serena, não de ressentimento, desprezo ou ânsia de pertencer. Isso afasta as alternativas que falam em desapreço, rejeição social, crítica a costumes ou frustração. A única que expressa a ideia de que só é real o que se sente é a E.

Alternativa E.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • ANão há condenação moral da mistura de sagrado e profano; o poema só constata que a festa não é vivida por ele.
  • BO eu-lírico não demonstra ânsia de integração nem fala de rejeição social; o tom é de constatação.
  • CNão há crítica a tradições nem referência ao contexto modernista português.
  • DAtribui frustração e busca de emoções profundas e reflexões filosóficas, contrárias ao sensacionismo objetivo de Caeiro.

Assunto: Fernando Pessoa e a literatura portuguesa do século XX.

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