Questão 7 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2026

1º dia · Português

O cortiço é o centro de convergência, o lugar por excelência, em função do qual tudo se exprime. Ele é um ambiente, um meio – físico, social, simbólico – vinculado a um certo modo de viver e condicionando certa mecânica das relações. Mas além e acima dele, há outro meio mais amplo, a “natureza brasileira”, que desempenha papel essencial, o de uma natureza poderosa e transformadora.

Antonio Candido. “De cortiço a cortiço”. Novos Estudos CEBRAP, n. 30, julho de 1991. Adaptado.

Memórias de Martha é ambientado em um cortiço. Considerando as reflexões de Antonio Candido sobre esse espaço tipicamente urbano e o romance de Júlia Lopes de Almeida, responda:

a) O cortiço, em Memórias de Martha, configura-se como “o centro de convergência, o lugar por excelência, em função do qual tudo se exprime”? Explique a sua resposta.

b) Qual é a força “poderosa e transformadora” que provoca a mudança das condições sociais da protagonista em Memórias de Martha? Justifique a sua resposta.

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a) Não. Em O Cortiço, Aluísio Azevedo faz da habitação coletiva o organismo que determina o comportamento de todos. Em Memórias de Martha, de Júlia Lopes de Almeida, o cortiço é só o cenário inicial, da pobreza, da precariedade e da vizinhança difícil, em que a menina vive com a mãe, também pobre. Ele não é "o centro de convergência" nem o espaço "em função do qual tudo se exprime".

O que organiza a narrativa é a trajetória pessoal da protagonista, contada em primeira pessoa. Martha não é moldada pelo ambiente nem presa a ele: ela sai do cortiço, e a história segue com ela para outros espaços e relações. O cortiço funciona como ponto de partida e contraste, não como meio que condiciona todas as relações, como em Aluísio.

Resposta: não; o cortiço é apenas o ponto de partida e de contraste, e o eixo do romance é o percurso de Martha, que o deixa para trás.

b) Em Memórias de Martha não é a "natureza brasileira" que transforma a protagonista, como em Aluísio Azevedo. O que muda sua condição social é humano e social: a proteção e a solidariedade de pessoas de posição mais favorecida, somadas à educação e ao trabalho. A ascensão não vem de um determinismo do meio nem do acaso da natureza, mas de relações de proteção, de instrução e de esforço, com ênfase moral na caridade e na ideia de que o mérito pessoal e o estudo podem tirar alguém da miséria.

É por isso que Júlia Lopes de Almeida se afasta do naturalismo. O meio pobre não condena Martha, porque a educação e o amparo recebidos a livram dele.

Resposta: a força transformadora é social e humana, a proteção de benfeitores aliada à educação e ao trabalho, e não a natureza.

Assuntos: memórias de martha, o cortiço e naturalismo, literatura brasileira.

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