Questão 8 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2024
Leia os excertos para responder à questão.
I.
Quincas Borba
Os personagens de Machado de Assis eram tão medíocres que, enquanto outros loucos do mundo bancavam Napoleão o Grande, o de Machado de Assis contentava-se em ser Napoleão III.
Mario Quintana. Caderno H.
II.
Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. (...) Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.
Karl Marx. O 18 Brumário de Luís Bonaparte.
a) A mediocridade caracteriza, em geral, o sujeito médio, incapaz de se sobrepor às circunstâncias com que se defronta diretamente. Nesse sentido, Rubião é uma personagem medíocre. Comente.
b) Ao comparar os impérios de tio e sobrinho – Napoleão I e Napoleão III –, na França, Marx considera que os dois golpes representaram, respectivamente, uma tragédia e uma farsa. Por que se pode dizer que a loucura do vencido Rubião, vivida na história brasileira, possui aspectos sérios e risíveis? Justifique.
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Resolução comentada
Resolução comentada
a) Rubião, de Quincas Borba (Machado de Assis), é um professor de província que herda a fortuna de Quincas Borba. Ele não a conquista: recebe-a pronta, como "circunstância legada", nos termos de Marx. Muda-se para o Rio de Janeiro e passa a depender do meio que o cerca, sem autonomia para dominá-lo.
É ingênuo e vaidoso, e é explorado por Cristiano Palha e Sofia, que o usam para obter dinheiro e prestígio. Ele se ilude com a corte, com os favores e com a paixão por Sofia, sem perceber que é manipulado. Perde a fortuna, a lucidez e a posição.
Ele não se sobrepõe às circunstâncias: é conduzido por elas, o que faz dele um sujeito médio e medíocre. Até a loucura reflete isso, pois ele se imagina Napoleão III, um modelo herdado e de segunda mão, e não um grande conquistador. Rubião é medíocre porque, herdeiro passivo e manipulável, é moldado pelas circunstâncias e não consegue dominá-las, nem na própria loucura.
b) Aplicando a fórmula de Marx, o aspecto sério (trágico) de Rubião está no drama real: perde a fortuna, é traído, enlouquece e morre na miséria, abandonado. Isso expõe a violência de uma sociedade de interesses, em que os aproveitadores (Palha e Sofia) prosperam à custa do ingênuo.
O aspecto risível (farsesco) está na própria loucura: Rubião se julga Napoleão III, repete uma figura que o próprio Marx considera farsa, e se comporta como imperador, com pose, coroa imaginária e delírios de grandeza, sem poder algum. A cópia empobrecida e pretensiosa de um modelo europeu gera comicidade.
A ironia machadiana mostra que, na história brasileira, a elite imita modelos europeus de modo postiço e vazio, como o liberalismo de fachada do Segundo Reinado, convivendo com a escravidão. Há seriedade no sofrimento e na exploração de Rubião, e há comicidade na imitação farsesca de Napoleão III, de que decorre a crítica à sociedade brasileira.
Assuntos: quincas borba, machado de assis, literatura e história.
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