Questão H05 da 2ª fase da FUVEST 2021
No dia 12 de outubro de 1492, três navios a serviço da coroa de Castela, comandados pelo navegador genovês Cristóvão Colombo, chegaram às atuais Bahamas. Relacione tal acontecimento com a
a) concepção medieval-cristã de que a Terra era uma criação de Deus;
b) competição mercantil interestatal europeia de fins do século XV;
c) memória construída em torno dele em dois momentos dos séculos XX ou XXI.
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Resolução comentada
a) Para a visão medieval-cristã, a Terra era obra de Deus, e o mundo conhecido (Europa, Ásia e África, a "Ilha do Orbe") era o espaço da criação descrito nas Escrituras e organizado pela Igreja. A chegada de Colombo a terras desconhecidas desafiou esse quadro: surgiam povos e territórios que a Bíblia e os autores clássicos não mencionavam, o que obrigou a rever a geografia tradicional. Ao mesmo tempo, a mentalidade cristã deu sentido à viagem: Colombo se via como instrumento da Providência, o próprio nome "San Salvador" mostra isso, e a expansão foi justificada como missão de evangelizar e converter os povos encontrados. As bulas papais e o Tratado de Tordesilhas (1494) legitimaram a partilha das terras entre as coroas ibéricas. A chegada ao continente abalou o mapa medieval do mundo, mas foi interpretada e justificada pela fé cristã como obra divina e missão evangelizadora.
b) No fim do século XV, a Europa passava pela formação das monarquias centralizadas, que disputavam o comércio de especiarias e artigos de luxo do Oriente. As rotas mediterrâneas eram dominadas por Veneza e Gênova, e o acesso ao Oriente era encarecido pelos intermediários e dificultado pela expansão otomana após a queda de Constantinopla (1453). Portugal buscava o caminho para as Índias contornando a África, e detinha o controle do Atlântico Sul. Castela, recém-unificada com Aragão e concluída a Reconquista (1492), tentou uma alternativa: chegar ao Oriente navegando para o Ocidente. Colombo, genovês, obteve o apoio dos reis católicos, que buscavam ouro, especiarias e prestígio para competir com Portugal. A viagem foi uma aposta de Castela na rivalidade com Portugal e com as repúblicas italianas pelo comércio com o Oriente, e levou à descoberta de um continente.
c) A memória da chegada de Colombo foi construída de formas diferentes. Em 1992, nos 500 anos, a Espanha celebrou o "Descobrimento" e a Expo de Sevilha, com a imagem do herói navegador e da "união de dois mundos". Ao mesmo tempo, movimentos indígenas e de afrodescendentes na América criticaram a data, lembrando o genocídio, a escravização, as doenças e a destruição de culturas, e propuseram falar em "invasão" ou "encontro" de mundos. Outro exemplo: nos EUA, o Columbus Day, instituído como feriado nacional em 1937 (influência dos ítalo-americanos), foi contestado nos anos 2010 e 2020, e vários estados e cidades o substituíram pelo Dia dos Povos Indígenas. Estátuas de Colombo foram derrubadas ou retiradas em protestos em 2020. A memória oscilou entre a exaltação do herói do "descobrimento" (1992 na Espanha, Columbus Day nos EUA) e a revisão crítica que denuncia a violência da colonização (protestos indígenas e retirada de estátuas em 2020).
Assuntos: grandes navegações, expansão marítima castelhana, memória histórica.
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