Questão 2 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2021
Leia o texto e responda à questão.
“Eu só quero a minha liberdade de volta”. O pedido é um dos mais comuns entre as crianças e os adolescentes que viram suas vidas se transformarem há mais de quatro anos, quando a barragem de Fundão, da mineradora Samarco, se rompeu, formando um tsunami de rejeitos de minério que engoliu o vilarejo rural de Bento Rodrigues, em Mariana (Minas Gerais), e atingiu outros distritos da região. Após a tragédia, as famílias dos atingidos foram alocadas em casas alugadas em Mariana. Recomeçar uma nova rotina, no entanto, não tem sido fácil para os jovens. Além da adaptação ao novo território, as crianças também sofrem com o preconceito e o bullying. “Ainda há uma hostilização por parte dos moradores de Mariana. No início, quando eles frequentavam as mesmas escolas, eles eram chamados de pé de lama e marilama. Muitas vezes, eram culpados pelo encerramento das atividades da Samarco. Grande parte das falas das crianças são uma reprodução das dos adultos”, explica a psicóloga. Apesar de os jovens das cidades atingidas estarem estudando em instituições de ensino próprias, havia relatos de que eles evitavam circular na cidade com o uniforme da Escola Municipal de Bento Rodrigues, por exemplo.
H. Mendonça. "Filhos e órfãos de Mariana e Brumadinho enfrentam a infância interrompida por uma tragédia que não acabou". Adaptado.
a) Explique o processo de formação da palavra “marilama”, sublinhada no texto, identificando as semelhanças sonoras entre as formas originárias que se sobrepõem nessa nova formação.
b) Identifique uma atitude dos jovens do vilarejo rural de Bento Rodrigues que revele a tentativa de apagamento de suas identidades. Justifique sua resposta.
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Resolução comentada
a) "Marilama" é formada por cruzamento vocabular (ou amálgama, blend): duas palavras, "Mariana" e "lama", são fundidas em uma só, com perda de segmentos de ambas. O que torna a fusão possível é a sobreposição sonora entre elas.
O final de "Mariana" é "-ana" e "lama" tem a sequência "-ama". Os dois trechos têm as mesmas sílabas "ma" e "a", e diferem só pela consoante nasal ("n" em "Mariana", "m" em "lama"). Também coincide a sílaba "ma", que aparece em "Mari-a-na" e em "la-ma". Assim, "Mari(a)na" + "(la)ma" se sobrepõem na terminação, dando "Mari-lama". Há ainda a aliteração de /m/ e /l/ entre "Mari-" e "-lama".
O neologismo tem sentido pejorativo: associa os moradores de Mariana atingidos à lama de rejeitos. É o mesmo efeito de "pé de lama".
Resposta: cruzamento vocabular de "Mariana" + "lama", com sobreposição das sílabas "ma" e da vogal "a" ("-ana" / "-ama", diferindo apenas na nasal).
b) O texto diz que os jovens "evitavam circular na cidade com o uniforme da Escola Municipal de Bento Rodrigues".
O uniforme identifica a escola e, portanto, a origem do aluno, o vilarejo destruído. Como são alvo de hostilização e de apelidos como "pé de lama" e "marilama", escondem o uniforme para não serem reconhecidos como atingidos. Ao fazer isso, ocultam o pertencimento a Bento Rodrigues para escapar do preconceito, o que revela a tentativa de apagar a própria identidade.
Resposta: evitar circular pela cidade com o uniforme da escola de Bento Rodrigues, para não serem identificados como atingidos e sofrerem preconceito e bullying.
Assuntos: formação de palavras, interpretação de texto.
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