Questão 10 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2020
Considere os seguintes trechos:
(I) Era um pedreiro de Naim (...). O açoite dos intendentes rasgara-lhe a carne; depois a doença levara-lhe a força, como a geada seca a macieira. E agora, sem trabalho, com os filhos de sua filha a alimentar, procurava pedras raras nos montes – e gravava nelas nomes santos, sítios santos, para as vender no Templo aos fiéis. Em véspera de Páscoa, porém, viera um Rabi de Galileia cheio de cólera que lhe arrancara o seu pão!...
(II) (...) E nós tivemos de fugir, apupados1 pelos mercadores ricos, que, bem encruzados nos seus tapetes de Babilônia, e com o seu lajedo bem pago, batiam palmas ao Rabi... Ah! Contra esses o Rabi nada podia dizer, eram ricos, tinham pago! (...) Mas eu fui expulso pelo Rabi, somente porque sou pobre!
(III)(...) Bati no peito, desesperado. E a minha angústia toda era por Jesus ignorar esta desgraça, que, na violência do seu espiritualismo, suas mãos misericordiosas tinham involuntariamente criado, como a chuva benéfica por vezes, fazendo nascer a sementeira, quebra e mata uma flor isolada.
- Vaiados.
Eça de Queirós, A relíquia.
“Se quiséssemos recolher tudo o que já foi encontrado [da cruz de Cristo], daria para lotar um navio. O Evangelho conta que a cruz podia ser levada por um homem. Encher a Terra com tamanha quantidade de fragmentos de madeira que nem 300 homens aguentariam levar é uma desfaçatez”, já afirmava o teólogo francês Jean Calvino, profundamente cristão, em seu Tratado das Relíquias, publicado em 1543. A observação de Calvino continua viva cinco séculos depois. Os pedaços da chamada Vera Cruz, a cruz em que Jesus de Nazaré foi executado segundo a tradição cristã, são considerados relíquias de primeira categoria pela Igreja Católica, mas aparentemente são tão numerosos que dão a impressão de que Cristo foi um gigante crucificado em dois troncos de sequoias.
Manuel Ansede, “Fragmentos da cruz de Cristo dariam para ´lotar um navio inteiro”. In: El país, Caderno “Ciência”. Março de 2016. Adaptado.
a) Identifique as personagens que atuam como narradoras em cada um dos excertos de Eça de Queirós.
b) É possível afirmar que o romance A Relíquia endossa a perspectiva adotada por Manuel Ansede a respeito de elementos pertinentes à tradição cristã? Justifique.
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Resolução comentada
a) No trecho (I), o narrador é Teodorico Raposo, protagonista do romance, que conta em primeira pessoa a viagem a Jerusalém. Ele relata a história do pedreiro de Naim, que é apresentada em discurso indireto, como algo ouvido por Teodorico.
No trecho (II), a voz passa ao próprio pedreiro de Naim, que fala em primeira pessoa ("nós tivemos de fugir", "eu fui expulso"). Ele conta ao protagonista como foi expulso do Templo por Jesus, o "Rabi de Galileia", e a fala aparece dentro da narrativa de Teodorico.
No trecho (III), a narração volta a Teodorico, que registra o seu próprio comportamento ("Bati no peito") e o que sentiu diante do relato do pedreiro.
Narradores: (I) e (III) Teodorico Raposo; (II) o pedreiro de Naim, em discurso reproduzido por Teodorico.
b) Sim, em boa parte. O texto de Ansede, ao lembrar Calvino, ironiza o excesso de fragmentos da Vera Cruz e denuncia o caráter duvidoso e o comércio das relíquias. A Relíquia faz crítica semelhante. O livro satiriza a religiosidade de fachada e a exploração da fé. Teodorico, hipócrita, finge devoção à tia Patrocínio, beata, para herdar-lhe a fortuna. Em Jerusalém, ele adquire uma falsa coroa de espinhos, que lhe serve de relíquia a ser entregue à tia. O episódio zomba da credulidade e do mercado de objetos "sagrados". Esse mercado aparece também no pedreiro, que grava nomes santos em pedras para vendê-las no Templo.
Há, porém, uma nuance. A crítica de Eça é dirigida à Igreja, à hipocrisia e ao comércio da fé, mas não ao próprio Jesus. O trecho (III) mostra isso, pois Teodorico lamenta que Jesus ignore a desgraça que seu "espiritualismo" causou, e compara suas mãos a uma "chuva benéfica". Não há ataque à figura de Cristo, só à exploração da religião.
Sim: ambos criticam a mercantilização e a credulidade em torno de relíquias, mas Eça poupa a figura de Jesus e visa à hipocrisia religiosa.
Assuntos: a relíquia, eça de queirós, narrador e crítica à religiosidade.
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