Questão H02 da 2ª fase da FUVEST 2019
Leia o seguinte texto:
Ocorre aqui ao pensamento o que não é lícito sair à língua, e não falta quem discorra tacitamente, que a causa desta diferença tão notável foi a mudança da monarquia. Não havia de ser assim (dizem) se vivera um D. Manuel, um D. João, o terceiro, ou a fatalidade de um Sebastião não sepultara com ele os reis portugueses.
(...)
Não hei de pregar hoje ao povo, não hei de falar com os homens, mais alto hão de sair as minhas palavras ou as minhas vozes: a vosso peito divino se há de dirigir todo o sermão. (...) quero eu, Senhor, converter-vos a vós.
(...)
Mas pois vós, Senhor, o quereis e ordenais assim, fazei o que fordes servido. Entregai aos holandeses o Brasil, entregai-lhes as Índias, entregai-lhes as Espanhas (que não são menos perigosas as consequências do Brasil perdido); entregai-lhes quanto temos e possuímos (como já lhes entregastes tanta parte); ponde em suas mãos o Mundo; e a nós, aos portugueses e espanhóis, deixai-nos, repudiai-nos, desfazei-nos, acabai-nos. Mas só digo e lembro a Vossa Majestade, Senhor, que estes mesmos que agora desfavoreceis e lançais de vós, pode ser que os queirais algum dia, e que os não tenhais.
Padre Antônio Vieira, Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda. Sermões, Porto: Lello & Irmão, 1959.p. 300-301.
O padre Antônio Vieira foi considerado um dos mais ilustres luso-brasileiros do século XVII. Acerca desse sermão, escrito em 1640, ao final da chamada União Ibérica, responda ao que se pede.
a) Caracterize-o do ponto de vista de seu estilo literário.
b) Identifique o contexto da História de Portugal no qual o sermão foi composto.
c) Explique a situação da América portuguesa, tal como mencionada no texto.
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Resolução comentada
a) O sermão é uma peça típica do Barroco, em sua vertente da oratória sacra. Vieira usa uma linguagem rebuscada e argumentativa (o chamado conceptismo), com raciocínio engenhoso, antíteses e ironia. Há figuras como a prosopopeia e a apóstrofe: o orador deixa de falar aos homens e se dirige diretamente a Deus ("quero eu, Senhor, converter-vos a vós"). Há ainda a ênfase dramática, com repetição de verbos no imperativo ("entregai", "repudiai-nos", "desfazei-nos", "acabai-nos"), a hipérbole e o tom de cobrança. A fórmula "o que não é lícito sair à língua" mostra a cautela de quem critica de modo velado. O objetivo é persuadir e emocionar, como pede a retórica barroca e da Contrarreforma.
Estilo barroco: oratória sacra, conceptista, com apóstrofe, ironia, antíteses e linguagem retórica e dramática.
b) O sermão foi escrito em 1640, ano em que terminava a União Ibérica (1580-1640). Portugal estava sob os Habsburgo espanhóis (Filipe IV) desde a crise sucessória após a morte de D. Sebastião em Alcácer-Quibir (1578). Nesse período, Portugal perdeu territórios coloniais para os holandeses, inimigos da Espanha, e crescia o descontentamento da nobreza e da burguesia. O texto alude à saudade dos reis portugueses (D. Manuel, D. João III) e culpa a "mudança da monarquia" pelas desgraças. Em dezembro de 1640 ocorreu a Restauração, com a aclamação de D. João IV, da dinastia de Bragança.
Contexto: fim da União Ibérica, às vésperas da Restauração portuguesa (1640), com a dinastia de Bragança.
c) O texto trata da ameaça holandesa ao Brasil. A Holanda, em guerra com a Espanha, atacou as possessões ibéricas: ocupou o Nordeste açucareiro (Pernambuco, a partir de 1630, e outras capitanias) e estava em vias de dominar também partes da África e do Oriente ("as Índias"). Em 1640 o sermão foi pregado na Bahia, que estava ameaçada e sob ataques. Vieira pede a Deus que proteja a colônia, pois o Brasil era a principal fonte de riqueza (açúcar) e sua perda teria graves consequências para Portugal e para a Espanha ("não são menos perigosas as consequências do Brasil perdido"). Ele lê a derrota como punição divina e pede a ajuda de Deus.
A América portuguesa estava ameaçada e parcialmente ocupada pelos holandeses (Nordeste açucareiro), o que Vieira vê como perda grave que Deus não deveria permitir.
Assuntos: padre antônio vieira, união ibérica, invasões holandesas.
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