Questão H03 da 2ª fase da FUVEST 2018
A Índia exporta para a China vastas quantidades de ópio, para cujo cultivo possui facilidades peculiares. O ópio pode ser produzido em Bengala melhor e mais barato do que em qualquer outra parte do mundo; e a China oferece um mercado quase que ilimitado em suas dimensões. O gosto por essa droga espalhou-se pelo império, a despeito das severas regulações para sua exclusão, e se diz que ele entrou no próprio palácio. Não obstante o consumo desse estimulante pernicioso eventualmente ser reprimido de um ponto de vista moral, é certo que ele promove diversos objetos que são igualmente desejáveis tanto pela Índia como pela Inglaterra. A Índia, ao exportar ópio, auxilia o fornecimento de chá à Inglaterra. A China, ao consumir ópio, facilita as operações de receita entre a Índia e a Inglaterra. A Inglaterra, ao consumir chá, contribui para aumentar a demanda por ópio indiano.
Edward Thornton, India, its state and prospects. Londres: Parbury, Allen & Co., 1835. Adaptado.
a) Indique como o texto caracteriza a cadeia mercantil do ópio e qual sua importância para a economia inglesa do século XIX e para as relações coloniais entre Grã-Bretanha e Índia.
b) Identifique e explique um conflito posterior a 1835 que se relacione diretamente aos processos descritos no texto.
Reportar erro na questão
Resolução comentada
a) O autor descreve um circuito triangular, em que cada parte depende das outras. A Índia (Bengala), sob controle britânico, produz ópio barato e o exporta para a China. A China, que tem um mercado "quase ilimitado", consome a droga mesmo com as proibições imperiais. Com isso, a Inglaterra paga o chá que importa da China e o consumo inglês de chá aumenta a demanda pelo ópio indiano. O texto trata o circuito como vantajoso para todos e deixa a condenação moral em segundo plano ("eventualmente ser reprimido de um ponto de vista moral").
Para a economia inglesa, o circuito resolvia um problema de balança comercial. A Inglaterra comprava muito chá chinês, mas a China pouco se interessava por produtos ingleses, e a prata saía do país. O ópio indiano, vendido aos chineses, fornecia a prata ou as receitas que cobriam esse déficit. O texto fala em "operações de receita entre a Índia e a Inglaterra". Esse comércio também abastecia a Companhia das Índias e o Estado britânico com impostos e lucros.
Nas relações coloniais, a Índia aparece subordinada aos interesses da metrópole: seu território era usado para cultivar um produto de exportação, e as remessas de receita iam para a Inglaterra. É uma economia colonial voltada para as necessidades do império britânico.
O texto descreve um circuito triangular Índia–China–Inglaterra, em que o ópio indiano pago pelos chineses financiava o chá consumido na Inglaterra, equilibrando as contas britânicas e mantendo a Índia como colônia fornecedora e fonte de receita para a metrópole.
b) O conflito foi a Primeira Guerra do Ópio (1839-1842), seguida da Segunda (1856-1860). O governo chinês tentou conter o vício e a saída de prata do país. Em 1839, o comissário Lin Zexu apreendeu e destruiu milhares de caixas de ópio de comerciantes britânicos em Cantão. A Inglaterra reagiu em nome do "livre comércio" e de seus interesses econômicos, e sua superioridade naval e militar levou à derrota da China.
O Tratado de Nanquim (1842) obrigou a China a abrir portos ao comércio inglês, pagar indenização e ceder Hong Kong. Esse tratado, somado a outros posteriores, impôs o regime de extraterritorialidade e abriu o país à penetração imperialista. Com isso, a China passou a ter autonomia reduzida, e o ópio continuou entrando no país.
Primeira Guerra do Ópio (1839-1842): a Inglaterra reagiu à proibição chinesa do ópio, venceu e impôs o Tratado de Nanquim, com abertura de portos, indenização e cessão de Hong Kong.
Assuntos: guerras do ópio, imperialismo britânico, índia colonial.
Reportar erro na resolução
Ver como caiu na prova