Questão 6 da 2ª fase da FUVEST 2018

1º dia · Português

Leia o texto.

A complicada arte de ver

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões — é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementares", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".

Rubem Alves, Folha de S.Paulo, 26/10/2004. Adaptado.

a) Segundo a concepção do autor, como a poesia pode ser entendida?

b) Reescreva o trecho “Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”, substituindo o termo sublinhado por “Naquela época” e empregando a primeira pessoa do plural. Faça as adaptações necessárias.

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Resolução comentada

a) No texto, a paciente descobre que nunca tinha realmente "visto" a cebola: o ato cotidiano e banal de cortá-la deixava de ser automático e a cebola passava de objeto a ser comido a obra de arte a ser contemplada, comparada à rosácea de um vitral gótico. O narrador diz que essa "perturbação ocular" é comum entre os poetas e conclui: "Os poetas ensinam a ver".

Para o autor, portanto, a poesia é uma forma de olhar o mundo com estranhamento e encantamento. Ela desautomatiza o olhar habitual e utilitário, revela a beleza e a novidade de coisas comuns e ensina a percebê-las de outro modo. Poesia, aqui, não é só um gênero literário: é uma maneira de ver e uma lente que transforma o cotidiano.

A poesia pode ser entendida como uma forma de ver o mundo: ela desautomatiza o olhar e faz perceber beleza e novidade no que é banal e cotidiano.

b) Ao trocar "Agora" por "Naquela época", o tempo deixa de ser o presente e passa a ser um passado distante. Por isso, o verbo "ver" e o verbo "causar" vão para o pretérito imperfeito, que indica uma ação habitual ou contínua no passado. Na primeira pessoa do plural, "vejo" vira "víamos" e "me" vira "nos". O verbo "causar" concorda com o sujeito "tudo o que", que continua no singular: "causava".

Naquela época, tudo o que víamos nos causava espanto.

Assuntos: interpretação de texto, tempos e pessoas verbais.

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