Questão 3 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2018

1º dia · Português

Examine a transcrição do depoimento de Eduardo Koge, líder indígena de Tadarimana, MT.

Nós vivemos aqui que nem gado. Tem a cerca e nós não podemos sair dessa cerca. Tem que viver só do que tem dentro da cerca. É, nós vivemos que nem boi no curral.

Paulo A. M. Isaac, Drama da educação escolar indígena Bóe-Bororo.

a) Nos trechos “Tem a cerca...” e “Tem que viver...”, o verbo “ter” assume sentidos diferentes? Justifique.

b) Reescreva, em um único período, os trechos “Nós vivemos aqui que nem gado” e “nós não podemos sair dessa cerca”, empregando discurso indireto. Comece o período conforme indicado na página de respostas.

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Resolução comentada

a) Sim, os sentidos são diferentes.

Em "Tem a cerca...", o verbo "ter" é impessoal e tem sentido de existir ("existe a cerca"). Ele não tem sujeito e indica apenas a presença da cerca ao redor da aldeia. Na linguagem coloquial, "ter" ocupa o lugar de "haver".

Em "Tem que viver só do que tem dentro da cerca", a primeira ocorrência, em "Tem que viver", forma a locução "ter que + infinitivo", que expressa obrigação ou necessidade ("é preciso viver", "deve-se viver"). Aqui o verbo funciona como auxiliar modal. A segunda ocorrência, em "o que tem dentro da cerca", volta ao sentido de existir ("o que há dentro da cerca").

Portanto, no primeiro trecho o verbo indica existência e, no segundo, indica obrigação.

Resposta: sim; em "Tem a cerca" o verbo significa existir, e em "Tem que viver" significa obrigação, necessidade.

b) No discurso indireto, o narrador relata a fala por meio de um verbo de dizer seguido de oração subordinada. Para isso, é preciso ajustar pessoa, tempo verbal e dêiticos ("aqui" vira "lá", "dessa" vira "daquela").

Os ajustes necessários são:

  1. "Nós vivemos" passa para a 3ª pessoa do plural: "eles viviam" (ou "vivem"). Se o enunciado da página de respostas indicar "Eduardo Koge afirmou que...", o presente do relato passa ao pretérito imperfeito.
  2. "aqui" passa a "lá".
  3. "nós não podemos sair" passa para "não podiam sair".
  4. "dessa cerca" passa a "daquela cerca".
  5. As duas orações são unidas por "e", em um só período.

A frase fica assim:

\text{Eduardo Koge afirmou que eles viviam lá como gado e que não podiam sair daquela cerca.}

O período pode começar como "Eduardo Koge disse que...". Mantive o relato no pretérito, que é a forma mais segura.

Resposta: Eduardo Koge afirmou que eles viviam lá como gado e que não podiam sair daquela cerca.

Assuntos: semântica do verbo ter, discurso indireto.

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