Questão G06 da 2ª fase da FUVEST 2017

3º dia · Geografia

Todos os que se iniciam no conhecimento das ciências da natureza – mais cedo ou mais tarde, por um caminho ou por outro – atingem a ideia de que a paisagem é sempre uma herança. Na verdade, ela é uma herança em todo o sentido da palavra: herança de processos fisiográficos e biológicos, e patrimônio coletivo dos povos que historicamente as herdaram como território de atuação de suas comunidades.

Ab’Sáber, A. N. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. Ateliê Editorial, 2003. Adaptado.

Duas fotografias comparativas do Pico do Cauê em Itabira, Minas Gerais. À esquerda, a imagem de 1942 exibe a elevação rochosa original do pico em meio ao relevo ondulado. À direita, a imagem de 2007 mostra o chamado "Buraco do Cauê", uma enorme cratera resultante de décadas de extração mineral com estruturas da mineradora ao fundo.

http://revistadoispontos.com. Acessado em outubro de 2016.

a) Considerando o texto e as imagens, explique por que a paisagem herdada deve ser protegida das ações predatórias.

b) Para alguns cientistas, as transformações provocadas na superfície do planeta pelas atividades humanas são significativas e irreversíveis. Explique o porquê dessa irreversibilidade, considerando a diferença entre tempo geológico e tempo histórico.

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Resolução comentada

a) O texto de Ab'Sáber diz que a paisagem é uma herança em dois sentidos: ela resulta de processos fisiográficos e biológicos (relevo, rochas, solos, vegetação) e é patrimônio coletivo dos povos que a herdaram como território. Isso significa que ela não pertence apenas à geração atual, pois foi construída ao longo de muito tempo e deve ser transmitida às gerações futuras.

As imagens mostram o que ocorre quando essa herança é tratada de forma predatória. Em 1942, o Pico do Cauê, em Itabira (MG), era uma elevação rochosa preservada no relevo ondulado. Em 2007, após décadas de extração de minério de ferro, restou uma cratera, o "Buraco do Cauê", com a perda do pico, da vegetação e do valor paisagístico, histórico e cultural do local.

Por isso a paisagem deve ser protegida: a exploração imediata dos recursos, voltada ao lucro de poucos, destrói um bem coletivo, compromete o equilíbrio ambiental e o direito das futuras gerações de usufruir dele. A paisagem é herança natural e patrimônio coletivo; a exploração predatória, como a do Pico do Cauê, destrói um bem construído em muito tempo e que pertence também às gerações futuras.

b) O tempo geológico é medido em milhões de anos, e é nele que se formam as rochas, o relevo e os solos, por processos lentos como o intemperismo, a erosão, a sedimentação e a tectônica. O tempo histórico, o das sociedades humanas, é medido em décadas e séculos.

As atividades humanas, com tecnologia, máquinas e escala industrial, transformam a superfície em poucas décadas, como a mineração que removeu o Pico do Cauê. Os processos naturais, porém, são muito mais lentos do que essa velocidade de destruição. Assim, o que foi retirado ou alterado não se recompõe na escala de tempo da vida humana: um relevo desfeito, um solo degradado ou uma espécie extinta não se refazem em tempo historicamente útil. Os minérios, além disso, são recursos não renováveis. Daí a irreversibilidade, para as sociedades, dessas transformações. A ação humana altera a superfície em tempo histórico (décadas), enquanto a natureza só a recompõe em tempo geológico (milhões de anos), por isso as mudanças são, para as sociedades, irreversíveis.

Assuntos: paisagem e meio ambiente, tempo geológico e tempo histórico, mineração.

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