Questão 10 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2017
Leia o excerto de Mayombe, de Pepetela, no qual as personagens “dirigente” e Comandante Sem Medo discutem o comportamento do combatente chamado Mundo Novo. As indicações [d] e [C] identificam, respectivamente, as falas iniciais do “dirigente” e do Comandante Sem Medo, que se alternam, no diálogo.
[d] (...) A propósito do Mundo Novo: a que chamas tu ser dogmático?
[C] — Ser dogmático? Sabes tão bem como eu.
— Depende, as palavras são relativas. Sem Medo sorriu.
— Tens razão, as palavras são relativas. Ele é demasiado rígido na sua conceção da disciplina, não vê as condições existentes, quer aplicar o esquema tal qual o aprendeu. A isso eu chamo dogmático, penso que é a verdadeira aceção da palavra. A sua verdade é absoluta e toda feita, recusa-se a pô-la em dúvida, mesmo que fosse para a discutir e a reforçar em seguida, com os dados da prática. Como os católicos que recusam pôr em dúvida a existência de Deus, porque isso poderia perturbá-los.
— E tu, Sem Medo? As tuas ideias não são absolutas?
— Todo o homem tende para isso, sobretudo se teve uma educação religiosa. Muitas vezes tenho de fazer um esforço para evitar de engolir como verdade universal qualquer constatação particular.
a) Que relação se estabelece, no excerto, entre a forma dialogal e as ideias expressas pelo Comandante Sem Medo?
b) No plano da narração de Mayombe, isto é, no seu modo de organizar e distribuir o discurso narrativo, emprega-se algum recurso para evitar que o próprio romance, considerado no seu conjunto, recaia no dogmatismo criticado no excerto? Explique resumidamente.
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Resolução comentada
a) O diálogo é, em si, a prática do que Sem Medo defende. Ele critica o dogmático, que tem uma "verdade absoluta e toda feita" e se recusa a pô-la em dúvida. Já a forma dialogal obriga as ideias a serem postas à prova: o "dirigente" pergunta, contesta ("as palavras são relativas") e chega a questionar o próprio Sem Medo ("E tu, Sem Medo? As tuas ideias não são absolutas?"). Sem Medo aceita a relativização e concorda ("Tens razão"). Ele ainda admite que também tende ao absoluto e precisa se vigiar. Assim, as ideias dele não aparecem como sentença definitiva, mas se constroem na troca, na dúvida e na autocrítica, o que é o contrário do dogmatismo.
Resposta: a forma dialogal confronta e relativiza as ideias de Sem Medo, que aceita ser questionado, e assim realiza na prática a abertura à dúvida que ele defende contra o dogmatismo.
b) Sim. Mayombe tem narração fragmentada e polifônica: a história é contada por vários pontos de vista, com capítulos que dão voz a diferentes combatentes (Sem Medo, Teoria, Mundo Novo, Milagre, o Comissário, entre outros) e alternam narrador em 3ª pessoa e discurso em 1ª pessoa. Nenhuma voz ou perspectiva fica como dona da verdade: cada personagem, com suas origens, tribos e contradições, expõe sua visão, e elas se confrontam e se corrigem. Assim, o romance se constrói como um conjunto de olhares que se relativizam e evita que uma única visão, absoluta, domine a obra.
Resposta: sim, a multiplicidade de vozes e focos narrativos (polifonia) impede que uma só perspectiva se imponha como verdade única.
Assuntos: mayombe, pepetela, literatura africana de língua portuguesa.
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