Questão 7 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2016

1º dia · Português

No capítulo CXIX das Memórias póstumas de Brás Cubas, o narrador declara: “Quero deixar aqui, entre parêntesis, meia dúzia de máximas* das muitas que escrevi por esse tempo.” Nos itens a) e b) encontram-se reproduzidas duas dessas máximas. Considerando-as no contexto da obra a que pertencem, responda ao que se pede.

  • “Máxima”: fórmula breve que enuncia uma observação de valor geral; provérbio.

a) “Matamos o tempo; o tempo nos enterra.”
Pode-se relacionar essa máxima à maneira de viver do próprio Brás Cubas? Justifique sucintamente.

b) “Suporta-se com paciência a cólica do próximo.”
A atitude diante do sofrimento alheio, expressa nessa máxima, pode ser associada a algum aspecto da filosofia do “Humanitismo”, formulada pela personagem Quincas Borba? Justifique sua resposta.

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Resolução comentada

a) Sim. A máxima diz que passamos a vida "matando o tempo", isto é, ocupando-o com distrações, enquanto ele acaba nos vencendo com a morte. Isso combina com a vida de Brás Cubas, um homem de classe alta que nunca precisou trabalhar e viveu de renda e de aparências. Ele passa o tempo em amores adúlteros (Virgília), em projetos vaidosos e sem consequência (o emplasto antipoético, a ambição política de ser ministro, a vontade de ser reconhecido) e em ociosidade. Nada disso deixa obra útil ou realização duradoura. No fim, ele mesmo faz o balanço de que não teve filhos, não transmitiu a ninguém "o legado da nossa miséria". O tempo, por fim, o "enterra", e o defunto autor narra de além-túmulo uma vida desperdiçada em passatempos. Resposta: sim, pois Brás mata o tempo em ócio, vaidade e adultério sem produzir nada, e termina vencido pela morte.

b) Sim. O Humanitismo, doutrina de Quincas Borba, é uma paródia do cientificismo e do darwinismo social da época. Segundo ele, a humanidade é o princípio único, e a luta pela sobrevivência justifica qualquer coisa: a dor, a guerra e a fome são apenas meios necessários para que os mais fortes prevaleçam. Pela fórmula "ao vencedor, as batatas", o sofrimento do vencido não merece compaixão, e é visto como natural e até útil. A máxima "suporta-se com paciência a cólica do próximo" expressa essa mesma indiferença egoísta: aguenta-se a dor alheia sem se comover, pois ela não nos atinge. Assim se revela o cinismo da filosofia e da classe dominante, que racionaliza a falta de solidariedade. Resposta: sim, pois o Humanitismo justifica o sofrimento alheio como parte natural da luta pela vida, o que se alinha à indiferença da máxima.

Assuntos: memórias póstumas de brás cubas, humanitismo, machado de assis.

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