Questão 3 (2º dia) da 2ª fase da FUVEST 2013
Não mais, musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.
Luís de Camões, Os Lusíadas.
a) Cite uma característica típica e uma característica atípica da poesia épica, presentes na estrofe. Justifique.
b) Relacione o conteúdo dessa estrofe com o momento vivido pelo Império Português por volta de 1572, ano da publicação de Os Lusíadas.
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Resolução comentada
a) A estrofe pertence ao Epílogo (canto X, est. 145) e mantém traços da épica clássica. Característica típica: a invocação à musa ("Não mais, musa, não mais"), convenção herdada de Homero e Virgílio, em que o poeta se dirige à entidade inspiradora do canto. Também é típica a forma: oitava rima (ABABABCC) em decassílabos heroicos.
Característica atípica: o tom pessoal e lírico-queixoso do poeta. Em vez de narrar feitos heroicos em tom elevado e impessoal, o eu lírico fala de si ("a lira tenho destemperada", "a voz enrouquecida"), lamenta o cansaço e a falta de reconhecimento. Também é atípica a crítica direta ao público, "gente surda e endurecida", e à pátria, o que rompe a exaltação coletiva própria do gênero. A épica costuma celebrar o povo; aqui o poeta o censura.
Típica: invocação à musa, que marca a convenção épica; atípica: o desabafo subjetivo e a crítica à pátria, em tom de lamento pessoal.
b) Por volta de 1572, Portugal vivia o início da decadência do Império. O auge das navegações e do comércio oriental já passara, e a Coroa se desgastava com o custo de manter o império ultramarino, com dívidas e dependência de financiamento externo. Faltavam homens e recursos, e o rei D. Sebastião logo se lançaria na aventura militar no Norte da África, que levaria ao desastre de Alcácer-Quibir (1578) e à perda da independência para a Espanha (1580).
A estrofe reflete esse quadro. A pátria está "no gosto da cobiça": a nobreza e a burguesia buscavam o lucro fácil do comércio e dos cargos, e não os valores heroicos e a cultura. A "rudeza" indica a falta de sensibilidade para as letras, por isso o poeta não recebe o "favor" que acenderia o engenho. A "austera, apagada e vil tristeza" resume o clima de apatia, de rigidez moral e religiosa (Contrarreforma, Inquisição) e de decadência. Assim, o poeta, que cantou a glória lusitana, sente que ela já não encontra eco em seu tempo.
A estrofe expressa a decadência do Império e dos valores heroicos: cobiça, rudeza e tristeza tomam conta de Portugal, que já não valoriza o poeta nem seus feitos.
Assuntos: os lusíadas, épica camoniana, classicismo português.
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