Questão 2 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2013
Leia o texto.
Ditadura / Democracia
A diferença entre uma democracia e um país totalitário é que numa democracia todo mundo reclama, ninguém vive satisfeito. Mas se você perguntar a qualquer cidadão de uma ditadura o que acha do seu país, ele responde sem hesitação: “Não posso me queixar”.
Millôr Fernandes, Millôr definitivo: a bíblia do caos.
a) Para produzir o efeito de humor que o caracteriza, esse texto emprega o recurso da ambiguidade? Justifique sua resposta.
b) Reescreva a segunda parte do texto (de “Mas” até “queixar”), pondo no plural a palavra “cidadão” e fazendo as modificações necessárias.
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Resolução comentada
a) Sim. O humor nasce da ambiguidade da expressão "Não posso me queixar", que admite dois sentidos. No sentido literal e mais comum, ela quer dizer "estou satisfeito, não tenho do que reclamar". No sentido que o contexto da ditadura sugere, quer dizer "não tenho permissão para me queixar", porque não há liberdade de expressão. O verbo "poder" tem aí dois valores: "ter motivo" e "ter permissão".
A primeira parte do texto diz que na democracia "ninguém vive satisfeito" e todos reclamam. Isso leva o leitor a entender a fala do cidadão da ditadura como satisfação. A leitura de que ele é proibido de reclamar surge depois e quebra essa expectativa. Essa quebra produz o efeito humorístico e carrega a crítica política.
Resposta: sim, a ambiguidade de "Não posso me queixar" (não tenho motivo / não tenho permissão) produz o humor e a crítica ao regime autoritário.
b) Ao pôr "cidadão" no plural ("cidadãos"), é preciso ajustar o que concorda com ele ou o retoma:
- "qualquer cidadão" passa a "quaisquer cidadãos";
- "o que acha" passa a "o que acham" (verbo no plural);
- "ele responde" passa a "eles respondem";
- "Não posso me queixar" passa a "Não podemos nos queixar", pois a fala é de cada um deles. Se o plural for mantido em terceira pessoa em discurso indireto, seria "não podem se queixar", mas na citação direta o natural é a primeira pessoa do plural;
- "seu país" pode permanecer no singular, pois é o país de todos.
O trecho fica assim:
"Mas se você perguntar a quaisquer cidadãos de uma ditadura o que acham do seu país, eles respondem sem hesitação: 'Não podemos nos queixar'."
Assuntos: ambiguidade, concordância verbal e nominal, interpretação de texto.
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