Questão 7 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2012
Leia o excerto de Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, para responder ao que se pede.
Caldo Entornado
A comadre, tendo deixado o major entregue à sua vergonha, dirigira-se imediatamente para a casa onde se achava Leonardo para felicitá-lo e contar-lhe o desespero em que a sua fuga tinha posto o Vidigal. (...) A comadre, segundo seu costume, aproveitou o ensejo, e depois que se aborreceu de falar no major desenrolou um sermão ao Leonardo, (...). O tema do sermão foi a necessidade de buscar o Leonardo uma ocupação, de abandonar a vida que levava, gostosa sim, porém sujeita a emergências tais como a que acabava de dar-se. A sanção de todas as leis que a pregadora impunha ao seu ouvinte eram as garras do Vidigal.
Você concorda com as afirmações que seguem? Justifique suas respostas.
a) Vê-se, no excerto, que a comadre procura incutir em Leonardo princípios morais destinados a corrigir o comportamento do afilhado.
b) No sermão que prega a Leonardo, a comadre manifesta a convicção de que o trabalho é fator decisivo na formação da personalidade de um jovem.
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Resolução comentada
a) Não concordo. A comadre dá o sermão, e o tema é a necessidade de Leonardo buscar uma ocupação e abandonar a vida que levava. Mas o motivo não é moral. O próprio narrador diz que essa vida era "gostosa sim", embora sujeita a emergências como a que acabara de ocorrer. O problema, portanto, é o risco de cair nas mãos do Vidigal, e não um defeito de caráter a corrigir.
O trecho mostra isso ao dizer que a "sanção" das leis impostas por ela "eram as garras do Vidigal". Ou seja, o que dá força ao sermão é o medo da punição, não a ideia de virtude. Isso combina com a moral flexível e pragmática da comadre, que no romance vive de expedientes e malandragem. Ela quer proteger o afilhado, não reformá-lo moralmente.
Resposta: não; o sermão é motivado pelo perigo da repressão do Vidigal, não por princípios morais.
b) Não concordo. A comadre recomenda que Leonardo arranje uma ocupação, mas o excerto não a mostra defendendo o trabalho como o que forma a personalidade de um jovem. Isso seria uma convicção sobre educação e caráter, e o texto não traz nada nesse sentido.
A ocupação é vista como proteção: um modo de escapar das "emergências" e das garras do Vidigal. Uma ocupação regular tornaria Leonardo menos visado pela polícia. Além disso, o tom do narrador é irônico: o sermão é "segundo seu costume", e a comadre fala até se aborrecer. Isso reforça que se trata de conselho prático, e não de uma convicção pedagógica sobre o valor formador do trabalho.
Resposta: não; a ocupação é proposta como meio de segurança contra o Vidigal, não como fator de formação da personalidade.
Assuntos: memórias de um sargento de milícias, interpretação de texto, romantismo.
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