Questão H03 da 2ª fase da FUVEST 2011

3º dia · História

Observe a seguinte foto.

Fotografia em preto e branco exibindo duas estátuas de mármore posicionadas em nichos com arcos plenos no salão de entrada do Museu Paulista. À esquerda, a estátua de Antônio Raposo Tavares em pose dinâmica, com uma das mãos sobre os olhos observando o horizonte, vestindo gibão, chapéu e botas de cano alto. À direita, a estátua de Fernão Dias Pais, retratado com barba longa, chapéu, capa e botas, segurando um cajado. Ambas as esculturas repousam sobre pedestais com inscrições comemorativas. Abaixo da imagem lê-se: Fonte: Imagens das estátuas de Antônio Raposo Tavares [esq.] e Fernão Dias Pais [dir.], existentes no salão de entrada do Museu Paulista, São Paulo.

Essas duas estátuas representam bandeirantes paulistas do século XVII e trazem conteúdos de uma mitologia criada em torno desses personagens históricos.

a) Caracterize a mitologia construída em torno dos bandeirantes paulistas.

b) Indique dois aspectos da atuação dos bandeirantes que, em geral, são omitidos por essa mitologia.

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Resolução comentada

a) A mitologia bandeirante foi construída sobretudo entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do século XX, por intelectuais e instituições paulistas (como o Museu Paulista, o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e a historiografia de Afonso Taunay). Ela apresenta o bandeirante como herói e desbravador do sertão. Seria um homem corajoso, viril, aventureiro e destemido, o "fundador da nação", responsável por ampliar as fronteiras do Brasil além do Tratado de Tordesilhas. Os bandeirantes também aparecem como símbolo da identidade paulista, de seu espírito empreendedor e de sua liderança na história nacional, o que ajudava a legitimar a posição política e econômica de São Paulo na República. As estátuas mostram isso: a pose altiva e o olhar para o horizonte (Raposo Tavares), o cajado e a expressão de líder (Fernão Dias), as roupas e botas de explorador, além da exposição no salão de entrada de um museu, em tom monumental. A mitologia faz do bandeirante um herói desbravador, corajoso e fundador da nação e do território brasileiro, símbolo da grandeza paulista.

b) Essa visão heroica omite aspectos violentos e econômicos da atuação dos bandeirantes:

  1. A caça e a escravização de indígenas (o apresamento), que era a principal atividade de muitas bandeiras. Isso envolveu ataques a aldeias e a missões jesuíticas (como as do Guairá), com mortes e deslocamento de populações. Os cativos abasteciam de mão de obra a lavoura paulista e outras regiões.

  2. A busca por lucro e por interesses particulares, e não por um projeto nacional. Entre esses interesses estavam a procura de ouro e pedras preciosas, o sertanismo de contrato (a destruição de quilombos e de povos indígenas resistentes, a serviço de autoridades coloniais) e a violência contra os povos nativos. A expansão territorial foi, em boa parte, consequência dessa busca, e não um objetivo consciente. Omitem-se a escravização e o massacre de indígenas e o caráter de busca de lucro (mão de obra, metais preciosos, combate a quilombos e a povos resistentes) dessas expedições.

Assuntos: bandeirantes, mitologia bandeirante, escravização indígena.

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