Questão H01 da 2ª fase da FUVEST 2011

3º dia · História

Se utilizássemos, numa conversa com homens medievais, a expressão “Idade Média”, eles não teriam ideia do que isso poderia significar. Eles, como todos os homens de todos os períodos históricos, se viam vivendo na época contemporânea. De fato, falarmos em Idade Antiga ou Média representa uma rotulação posterior, uma satisfação da necessidade de se dar nome aos momentos passados. No caso do que chamamos de Idade Média, foi o século XVI que elaborou tal conceito. Ou melhor, tal preconceito, pois o termo expressava um desprezo indisfarçado pelos séculos localizados entre a Antiguidade Clássica e o próprio século XVI.

Hilário Franco Júnior, A Idade Média. Nascimento do Ocidente.
3a ed. São Paulo: Brasiliense, s.d. [1986]. p.17. Adaptado.

A partir desse trecho, responda:

a) Em que termos a expressão “Idade Média” pode carregar consigo um valor depreciativo?

b) Como o período comumente abarcado pela expressão “Idade Média” poderia ser analisado de outra maneira, isto é, sem um julgamento de valor?

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Resolução comentada

a) A expressão "Idade Média" foi criada pelos humanistas e renascentistas do século XVI. Ela define o período apenas pela posição intermediária, como um "meio" entre dois momentos tidos como valiosos: a Antiguidade Clássica greco-romana e o próprio Renascimento, que se pensava como seu renascimento. Nessa visão, os séculos intermediários seriam um intervalo vazio, de estagnação cultural e decadência. Daí a imagem de "idade das trevas", de obscurantismo religioso, atraso científico e artístico, e a ideia de que o Renascimento teria "resgatado" a luz da Antiguidade. O texto chama isso de preconceito, pois o termo expressa "desprezo indisfarçado" por cerca de mil anos de história. O termo é depreciativo por tratar o período como um intervalo de atraso entre a Antiguidade e o Renascimento, visto como simples "meio", época de trevas, sem valor próprio.

b) Sem julgamento de valor, o período (séculos V a XV) pode ser analisado nos seus próprios termos, e não por comparação com o que veio antes ou depois. O historiador deve entender como os homens medievais viviam e se viam, como o texto lembra ao dizer que eles se achavam "contemporâneos". Isso significa estudar suas estruturas e transformações: o feudalismo e as relações de suserania e vassalagem, a sociedade estamental, a Igreja como instituição central, a formação dos reinos, o renascimento comercial e urbano, as universidades, a arte românica e gótica, a filosofia escolástica e os contatos com bizantinos e árabes. Também é preciso ver o período como processo dinâmico, com continuidades e rupturas em relação à Antiguidade e à Modernidade, e não como um bloco homogêneo e estático. Analisá-lo como época histórica com dinâmica, valores e criações próprias (economia, sociedade, religião, cultura), compreendida em seu contexto e sem compará-la valorativamente à Antiguidade ou ao Renascimento.

Assuntos: idade média, historiografia, periodização histórica.

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