Questão 6 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2011
Leia o seguinte texto.
Flagrado na Ilha de Caras, Fernando Pessoa disse que está bem mais leve depois que passou a ser um só.
LISBOA – Em pronunciamento que pegou de surpresa o mercado editorial, o poeta e investidor Fernando Pessoa anunciou ontem a fusão dos seus heterônimos. Com o enxugamento, as marcas Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro passam a fazer parte da holding* Fernando Pessoa S.A. “É uma reengenharia”, explicou o assessor e empresário Mário Sá Carneiro. Pessoa confessou que a decisão foi tomada “de coração pesado”: “Drummond sempre foi um só. A operação dele é enxutinha. Como competir?”, indagou. O poeta chegou a pensar em terceirizar os heterônimos através de um call-center** em Goa, mas questões de gramática e semântica acabaram inviabilizando as negociações. “Eles não usam mesóclise”, explicou Pessoa.
http://www.revistapiaui.com.br. Adaptado.
*Holding [holding company]: empresa criada para controlar outras empresas.
**Call-center: central de atendimento telefônico.
a) Esse texto tem apenas finalidade humorística ou comporta também finalidade crítica? Justifique sua resposta.
b) Por que o “call-center” mencionado no texto seria localizado especificamente em Goa?
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Resolução comentada
a) O texto tem finalidade humorística, mas também crítica. O humor vem do contraste entre o gênero e o tema: uma notícia de economia ("fusão", "holding", "reengenharia", "enxugamento", "terceirizar", "call-center") aplicada à poesia, com os heterônimos tratados como "marcas" e Pessoa como "investidor". Há ainda a piada com a fofoca de revista de celebridades ("Ilha de Caras").
A crítica está justamente nessa transposição. O texto satiriza a lógica empresarial que invade todas as esferas, inclusive a arte, e o jargão corporativo, que reduz tudo a mercado, concorrência e eficiência. Também ironiza a cultura da celebridade e do mercado editorial, em que o autor vira marca. A fala sobre Drummond, cuja "operação é enxutinha", e a pergunta "Como competir?" mostram a literatura vista como concorrência de mercado.
O texto é humorístico e também crítico: satiriza a mercantilização da arte e a linguagem empresarial, que transforma a criação poética em negócio.
b) Goa foi colônia portuguesa na Índia (até 1961) e mantém marcas da língua e da cultura portuguesas. O trecho brinca com a prática real de empresas que terceirizam call-centers para a Índia, onde a mão de obra é barata e há atendentes que falam inglês. Aqui, a terceirização seria para um lugar ligado a Portugal, o que torna a escolha plausível.
O humor se completa na frase seguinte: as negociações fracassaram por "questões de gramática e semântica", pois os atendentes de Goa "não usam mesóclise". A mesóclise é um traço do português formal e, hoje, quase só de Portugal. Os heterônimos, com seus estilos próprios, exigiriam esse domínio da língua, que o português de Goa não garante.
Porque Goa foi colônia portuguesa e, como a Índia em geral, é destino típico de terceirização de call-centers; a escolha permite a piada de que lá não se usa a mesóclise.
Assuntos: interpretação de texto, humor e sátira, heterônimos de Fernando Pessoa.
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