Questão 15 (2º dia) da 2ª fase da FUVEST 2011
Os ventos alísios fazem parte da circulação atmosférica global, soprando das zonas tropicais, de alta pressão, para a zona equatorial, de baixa pressão, sendo responsáveis, por exemplo, pelo transporte de umidade oceânica para o nordeste brasileiro. Esse tipo de vento aparece no poema de João Cabral de Melo Neto “A escola das facas”, publicado em 1980 no livro de mesmo nome, a seguir.
O alísio ao chegar ao Nordeste
baixa em coqueirais, canaviais;
cursando as folhas laminadas,
se afia em peixeiras, punhais.
Por isso, sobrevoada a Mata,
suas mãos, antes fêmeas, redondas,
ganham a fome e o dente da faca
com que sobrevoa outras zonas.
O coqueiro e a cana lhe ensinam,
sem pedra-mó, mas faca a faca
como voar o Agreste e o Sertão:
mão cortante e desembainhada.
a) Existe relação entre o que ocorre com o “alísio”, ao chegar ao Nordeste, e a palavra “escola”, presente no título do poema de João Cabral de Melo Neto? Explique.
b) A umidade do ar, trazida pelos ventos alísios, diminui ao entrar no continente. Descreva e explique duas adaptações evolutivas, relacionadas a esse fato, que diferenciam a vegetação da Zona da Mata da vegetação do Sertão.
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Resolução comentada
a) Sim. No poema, o alísio "vai à escola" no litoral: ao chegar ao Nordeste, passa pelos coqueirais e canaviais, cujas folhas são longas, finas e cortantes ("folhas laminadas"), e nelas "se afia", como uma faca afiada. O coqueiro e a cana são os mestres, pois "lhe ensinam, faca a faca, como voar o Agreste e o Sertão". O vento aprende ali a ser cortante, e as "mãos", antes "fêmeas, redondas", ganham "a fome e o dente da faca". É o aprendizado que dá sentido ao título "A escola das facas": a Mata é o lugar onde o vento aprende e se transforma. Esse aprendizado o prepara para a aspereza e a secura das zonas seguintes, o Agreste e o Sertão, que ele atravessa já com a agressividade que adquiriu. O poema liga a paisagem à dureza da vida no Nordeste. Resposta: sim; a "escola" é a Zona da Mata, onde coqueiros e canaviais, de folhas cortantes, ensinam o alísio a se afiar como faca, para cruzar o Agreste e o Sertão.
b) Na Zona da Mata, úmida, está a Mata Atlântica, com muita água disponível. No Sertão, onde a umidade é baixa e as chuvas são escassas e irregulares, domina a Caatinga, cujas plantas têm adaptações para economizar água. Duas delas:
- Redução da superfície foliar: folhas pequenas, transformadas em espinhos (como nos cactos) ou que caem na estação seca (caducifólia). Isso diminui a transpiração, ou seja, a perda de água por evaporação. Na Mata, as folhas são largas e perenes, e a perda de água não é problema.
- Armazenamento de água e raízes profundas ou extensas: cactos e outras plantas guardam água em caules suculentos, e muitas espécies têm raízes longas ou superficiais e muito ramificadas, que alcançam água profunda ou captam rápido a chuva ocasional. Na Mata, a água é abundante e esse investimento não é necessário.
As plantas com essas características sobreviveram e se reproduziram mais no ambiente seco, por seleção natural. Outras adaptações aceitas: cutícula espessa e impermeável, estômatos reduzidos ou que se abrem à noite. Resposta: na Caatinga, folhas reduzidas ou espinhos e queda das folhas na seca (menos transpiração); caules suculentos e raízes profundas ou extensas (armazenar e captar água). Na Mata úmida isso é desnecessário.
Assuntos: interpretação de poema, adaptações das plantas, biomas brasileiros.
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