Redação nota 1000 do Enem 2023: Bruno Henrique Alves dos Santos

Tema: Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil

No filme nacional “Que horas ela volta?”, a empregada doméstica de origem nordestina Val é crucial para o funcionamento de uma casa. Ao mesmo tempo, a personagem é subjugada e mal remunerada por seus patrões, tendo que dormir no quarto dos fundos, por exemplo. De forma semelhante, o Brasil encontra desafios para a valorização do trabalho de cuidado, majoritariamente exercido por mulheres. Isso ocorre porque os papéis de gênero estão enraizados na sociedade e por conta da maioria dessas trabalhadoras compor grupos sociais que já são invisibilizados.

Diante desse cenário, existe uma inerente posição na sociedade dada ao sexo feminino que contribui para a falta de amparo em relação a essa forma de trabalho. O conceito de “fato social”, do sociólogo Émile Durkheim, diz respeito às ações coletivas que estão arraigadas a um povo e que acontecem por si só, coercitivamente e sem questionamentos. Dessa maneira, a contínua conduta de dispensar o trabalho de cuidado à mulher é um fato social e, como essa função é exercida por um contingente que possui um mínimo espaço político, tal forma de labor é desprezada por todos.

Ademais, o descaso aumenta em relação à parte da identidade desses indivíduos que não corresponde ao gênero. Segundo a filósofa Carla Akotirene, em seu trabalho “Interseccionalidade”, os cidadãos sofrem opressão da sociedade por fatores identitários que não agem de forma independente, como idade, origem, etnia, entre outros. Sendo assim, há uma maior desvalorização desse trabalho porque as mulheres que o realizam, em sua maioria, também integram parcelas vulneráveis do corpo social, fazendo com que sua forçada subserviência de gênero seja aliada aos problemas que seus grupos societários já enfrentam.

Portanto, é necessária uma mobilização para mitigar tais mazelas. Dessarte, cabe ao Ministério do Trabalho, órgão responsável pela supervisão das relações de trabalho no Brasil, conceder maior participação política para as mulheres e para os responsáveis pelo trabalho de cuidado, separadamente, através do fomento à criação de partidos políticos e sindicatos que representem essas pessoas (e as partes complementares de suas identidades). Tal ação, teria como finalidade garantir seus direitos, principalmente os trabalhistas, e promover a solidificação da figura feminina em qualquer área de trabalho.

Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.

Ver como o INEP publicou Redação de Bruno Henrique Alves dos Santos na cartilha do INEP
Comentário da banca

O participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa. A redação é caracterizada por uma boa estruturação sintática: os períodos são construídos com a complexidade esperada para que a estrutura sintática seja avaliada como excelente, com subordinações e orações intercaladas, o que revela o domínio do participante na elaboração de períodos. Observa-se um único desvio gramatical no último parágrafo (emprego de vírgula separando sujeito e predicado em “Tal ação, [sic] teria como finalidade”).

Em relação ao tipo dissertativo-argumentativo, o participante demonstra excelente domínio. O tema é desenvolvido por meio da defesa do ponto de vista de que o trabalho de cuidado exercido pelo sexo feminino, no Brasil, é desvalorizado. Na introdução, é citada a questão do enraizamento dos papéis de gênero na sociedade brasileira e o fato de que a maioria das pessoas que desenvolvem trabalho de cuidado pertence a grupos sociais invisibilizados. No segundo parágrafo, o participante cita o conceito de “fato social”, do sociólogo Émile Durkheim, para ilustrar a situação do trabalho de cuidado realizado pelo sexo feminino e da posição da mulher na sociedade. No terceiro parágrafo, são apresentados fatores identitários, baseados nos estudos da pesquisadora Carla Akotirene, que corroboram para a situação de opressão sofrida por grupos minoritários. Por fim, no último parágrafo, o participante elabora proposta de intervenção relacionada à concessão de maior participação política da mulher na sociedade, o que levaria à promoção da solidificação da figura feminina em qualquer área de trabalho. Desse modo, com referência ao arcabouço científico e sociológico, bem como a fatos históricos, a redação demonstra, além do excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo, a abordagem completa do tema, com uso de repertório sociocultural produtivo.

Percebe-se, também, ao longo da redação, a presença de um projeto de texto, com informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, desenvolvidos de forma consistente e bem organizados em defesa do ponto de vista. No início do texto, o participante cita o filme “Que horas ela volta?” para exemplificar a desvalorização do trabalho de cuidado na sociedade brasileira. O segundo parágrafo é dedicado à argumentação sobre a posição da mulher na sociedade e na relação de trabalho que a envolve. No terceiro parágrafo, a argumentação avança para as questões de gênero. Assim, no parágrafo final, a participante conclui que é necessária uma mobilização dos órgãos responsáveis para mitigar a situação exposta. Desse modo, a seleção e a articulação dos argumentos garantem ao texto um projeto coerente e autoral.

Em relação aos aspectos coesivos, já notados na continuidade temática, observa-se, nessa redação, um repertório diversificado de recursos, sem inadequações. No plano nominal, há o emprego de pronomes (seus, isso, que, desse, tal) e palavras e expressões sinônimas ou equivalentes (“mulheres”, “sexo feminino”, “trabalhadoras”, “trabalho de cuidado”, “forma de trabalho”, “função”, “forma de labor”, “grupos sociais”, “cidadãos”). No plano sequencial, há o emprego de marcadores argumentativos e conectivos tanto intraparágrafo (“De forma semelhante”, “Isso”, “Dessa maneira”, “Sendo assim”, “Dessarte”) quanto interparágrafos (“Ademais”, “Portanto”). Também utilizou os sinais de pontuação, ligando palavras, orações e períodos complexos, com pertinência e de modo correto.

Por fim, o participante elabora proposta de intervenção completa, que é avaliada como muito boa. Ela permeia o texto e é decorrente do desenvolvimento da argumentação. Objetiva, a proposta é detalhada, mostra o quê e como deve ser realizada, quem vai realizar o que foi proposto e qual será o efeito da ação.

Conclui-se que o participante contemplou, em seu texto, integralmente e com excelência, todas as partes da proposta de redação.

Fonte: INEP, A redação no Enem 2024: cartilha do participante, página 61 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.