Redação nota 1000 do Enem 2023: Lucca Santos Aguilar

Tema: Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil

Na série “Anne with an E”, que se passa no século XIX, é retratada a história de Anne, uma garota que luta contra os papéis sociais arcaicos atribuídos às mulheres, como a obrigação de permanecer em casa e a incumbência de realizar, de forma exclusiva, as tarefas domésticas. De maneira análoga à ficção, a invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil representa uma trágica realidade hodierna, que afeta profundamente o bem-estar da população feminina. Tal problemática está fundamentada em questões histórico-culturais, como a misoginia, e traz como consequência a redução do protagonismo desse grupo na sociedade, sobretudo em áreas relacionadas ao mercado de trabalho e à educação. Dessa feita, é fulcral que uma medida seja tomada para mitigar esse cenário de invisibilidade e desigualdade.

Nesse diapasão, o trabalho de cuidado — atividades relacionadas à manutenção da harmonia social através da atenção ao ambiente doméstico e do ato de cuidar de outras pessoas — está amplamente associado às mulheres. Diante disso, é inegável que, desde o início da colonização brasileira, as ações de lavar, limpar e cozinhar fazem parte do ideal de participação social feminina. Sob esse prisma, segundo o alemão Albert Einstein, “é mais fácil destruir um átomo do que um preconceito”, ou seja, os papéis sociais de gênero atribuídos aos indivíduos, que foram perpetuados ao longo da história, estão enraizados na cultura do país, fato que é refletido pelos preconceitos e estereótipos machistas relacionados às mulheres, o que culmina na associação exclusiva do trabalho de cuidado a essa população.

Ademais, a invisibilidade das ações de cuidado doméstico e humanitário realizadas pelas mulheres está fortemente atrelada à desigualdade, pois a maior parte dessas atividades é caracterizada por longas jornadas de trabalho e por baixas ou inexistentes remunerações. Nesse contexto, a Constituição Federal de 1988 assegura direitos básicos dos cidadãos, como o acesso à educação e ao trabalho digno. Todavia, a invisibilidade e o caráter compulsório das ações de cuidado realizadas pelas mulheres acarretam a exclusão dessa população de outros setores da sociedade, como o mercado de trabalho, e estimula a evasão escolar e o abandono dos estudos, seja pela falta de tempo, seja pela falta de oportunidades.

Portanto, cabe à mídia — ferramenta capaz de produzir significativos impactos sociais — e às instituições educacionais de todo o país a produção de conteúdos para a elucidação da população brasileira acerca da relevância e das implicações do trabalho de cuidado realizado pelas mulheres. Tal ação deve ocorrer mediante a criação de campanhas publicitárias e cartilhas educacionais com o fito de promover a desconstrução dos papéis sociais misóginos presentes na sociedade brasileira, reduzir seus impactos e, por consequência, assegurar os direitos básicos das mulheres. Apenas assim, garantir-se-á que as situações vivenciadas por Anne não condigam com a realidade da população feminina do Brasil.

Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.

Ver como o INEP publicou Redação de Lucca Santos Aguilar na cartilha do INEP
Comentário da banca

O participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa. A redação apresenta estrutura sintática bem elaborada, sem desvios de escrita.

Em relação ao texto dissertativo-argumentativo, o participante também revela ter excelente domínio desse tipo textual. Inicia o texto citando a série “Anne with an E”, que retrata a história de “uma garota que luta contra os papéis sociais arcaicos atribuídos às mulheres, como a obrigação de permanecer em casa e a incumbência de realizar, de forma exclusiva, as tarefas domésticas”. A partir desse repertório, o participante apresenta o tema, a invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil e os desafios para enfrentá-lo. O segundo parágrafo é dedicado à argumentação sobre os fatos históricos e as questões de gênero, que foram atribuindo às mulheres o papel de cuidadoras. No terceiro parágrafo, é apresentada a questão da invisibilidade do trabalho de cuidado atribuído ao sexo feminino e à desigualdade de tratamento, o que não está de acordo com o previsto na Constituição Federal de 1988. O quarto parágrafo fecha o texto com a conclusão e a apresentação da proposta de intervenção, ambas relacionadas aos argumentos apresentados anteriormente.

Percebe-se, também, que o participante elaborou um projeto de texto, desenvolvido a partir de informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, de forma consistente e bem organizada, em defesa do ponto de vista planejado. No desenvolvimento do tema, defende-se a ideia de que a invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher “está fundamentada em questões histórico-culturais, como a misoginia, e traz como consequência a redução do protagonismo desse grupo na sociedade, sobretudo em áreas relacionadas ao mercado de trabalho e à educação”. No segundo parágrafo, são desenvolvidas ideias relacionadas às questões histórico-culturais. O participante expõe fatos sobre a colonização brasileira, relacionados ao trabalho de lavar, cozinhar e limpar, que deveriam ser feitos pelas mulheres, bem como a questão do preconceito e dos estereótipos, citando Albert Einstein: “é mais fácil destruir um átomo do que um preconceito”. No terceiro parágrafo, destaca “a invisibilidade das ações de trabalho de cuidado doméstico e humanitário realizadas pelas mulheres”. Para tanto, fundamenta-se na Constituição Federal de 1988, ao apontar a desigualdade de tratamento, como a baixa remuneração. No quarto parágrafo, propõe, ao finalizar o texto, que a mídia e as instituições educacionais de todo o país produzam conteúdos esclarecedores para a população.

O texto apresenta continuidade temática e, além disso, o participante emprega, sem inadequações, um repertório variado de recursos coesivos, que articulam os argumentos, as partes do textos e as informações apresentadas, tanto no plano nominal, com o emprego de pronomes (“desse grupo”, “esse cenário”, “outras pessoas”, “indivíduos, que foram”, “Tal ação”) e palavras ou expressões sinônimas (“garota” por “Anne”, “população feminina” por mulheres, “país” por Brasil), quanto no sequencial (“Dessa feita”, “Nesse diapasão”, “Diante disso”, “Sob esse prisma”, “Ademais”, “Nesse contexto”, “Portanto”). Também utilizou, com pertinência e de modo correto, os sinais de pontuação, ligando palavras, orações e períodos complexos.

Como a prova pede proposta de intervenção, esse texto é finalizado com duas propostas que respeitam os direitos humanos. Elas permeiam o texto e são decorrentes do desenvolvimento da argumentação. Essas propostas são detalhadas, mostram o quê e como devem ser realizadas, quem vai realizar o que foi proposto e qual será o efeito dessas ações de intervenção.

Conclui-se que o participante contemplou, em seu texto, integralmente e com excelência, todas as partes da proposta de redação.

Fonte: INEP, A redação no Enem 2024: cartilha do participante, página 58 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.