Redação nota 1000 do Enem 2023: Matheus Almeida Barros

Tema: Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil

Por meio de seu livro “Brasil, país do futuro” — publicado no último século — o escritor austríaco Stefan Zweig expressou a sua confiança de que a nação cresceria e se desenvolveria exponencialmente. Para além disso, nos dias atuais, a sociedade brasileira vivencia uma situação inversa, uma vez que a constante invisibilidade feminina relacionada ao trabalho de cuidado e seus impactos negativos na contemporaneidade não são características de um “país do futuro”. Desse modo, algumas negligências governamentais impulsionam a desvalorização trabalhista de cuidado desempenhado pela mulher brasileira e promovem o desenvolvimento de diversas desigualdades socioeconômicas. Logo, tanto a inefetividade das leis direcionadas ao público feminino quanto a escassez de investimentos na educação capacitativa são suscitadores da problemática.

Em primeiro plano, é imprescindível destacar a baixa eficiência das leis relacionadas ao trabalho da mulher como um fator que potencializa a invisibilidade do esforço doméstico e de cuidado desse grupo. Nesse sentido, o escritor brasileiro Gilberto Dimenstein defende que a legislação brasileira funciona somente no papel e, na prática, é ineficiente. A partir disso, tal tese pode ser comprovada por meio da má aplicação das leis trabalhistas femininas, uma vez que tais documentos não garantem, efetivamente, os direitos fundamentais da mulher, especialmente no âmbito do trabalho, e geram uma dependência dessa parcela ao cuidado doméstico, que é amplamente desvalorizado e, muitas vezes, não remunerado. Logo, tal insuficiência do sistema legislativo promove uma exploração exagerada da população feminina no país.

Além disso, vale ressaltar, ainda, a falta de verbas destinadas à educação como um fator que agrava e desvaloriza o trabalho de cuidado exercido pela mulher brasileira. Nesse sentido, o filósofo esloveno Slavoj Zizek afirma que os políticos liberais modernos priorizam interesses mercadológicos e menosprezam atitudes que beneficiem a coletividade. Dessa maneira, verifica-se uma imprudência estatal que, por sua vez, despreza a importância da educação ao não investir na capacitação feminina, o que impede a entrada desse grupo no mercado de trabalho e obriga a mulher a realizar os desvalorizados “trabalhos de cuidado”. Com isso, atitudes que visem ampliar a qualidade do sistema educacional brasileiro mostram-se amplamente necessárias.

Portanto, vistos os fatores que impactam negativamente na valorização do trabalho de cuidado feminino, medidas são necessárias para combatê-los. Cabe ao Governo Federal a realização de fiscalizações legislativas e, por meio de inspeções e vistorias em residências de risco, verificar se as leis trabalhistas femininas estão sendo devidamente aplicadas, a fim de garantir a não exploração da mulher doméstica. Ademais, o Ministério da Educação deve, através de verbas do FUNDEB — o Fundo Nacional de Educação Básica destinar investimentos às escolas, visando promover uma capacitação geral e inserir as mulheres em um mercado de trabalho justo. Somente assim, o público feminino conquistará a devida visibilidade no âmbito do trabalho.

Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.

Ver como o INEP publicou Redação de Matheus Almeida Barros na cartilha do INEP
Comentário da banca

Com excelente domínio das convenções da escrita e de estruturação sintática dos períodos, o texto apresenta dois desvios: no primeiro parágrafo, pela ausência de vírgula após o adjunto adverbial deslocado “Por meio de seu livro ‘Brasil, país do futuro’ — publicado no último século — [sic] o escritor...”, e, no último parágrafo, devido à falta de pontuação no final da intercalação do aposto “o Fundo Nacional da Educação Básica”.

No que se refere à estruturação do texto dissertativo-argumentativo, entende-se que o tema é abordado em sua totalidade no decorrer dos quatro parágrafos. No primeiro parágrafo, o participante expõe o problema: “algumas negligências governamentais impulsionam a desvalorização trabalhista de cuidado desempenhado pela mulher brasileira e promovem o desenvolvimento de diversas desigualdades socioeconômicas”. No segundo parágrafo, o participante destaca “a baixa eficiência das leis relacionadas ao trabalho da mulher como um fator que potencializa a invisibilidade do esforço doméstico e de cuidado desse grupo”, o que é corroborado com a citação das ideias de Gilberto Dimenstein. O terceiro parágrafo trata da falta de verbas destinadas à educação e à capacitação feminina, e cita-se o filósofo esloveno Slavoj Zizek, ao tratar de interesses mercadológicos. No quarto parágrafo final, conclui-se o texto com a apresentação de duas propostas de intervenção a cargo do governo federal e do Ministério da Educação.

Percebe-se, ao longo da redação, a presença de um projeto de texto, com informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, em defesa do ponto de vista apresentado. Na introdução, o participante aponta os fatos desencadeadores do problema: a inefetividade das leis direcionadas ao público feminino e a escassez de investimentos na educação capacitativa. No segundo parágrafo, são desenvolvidos argumentos que corroboram a inefetividade das leis direcionadas ao público feminino. Nesse sentido, são expostas ideias de Gilberto Dimenstein acerca da ineficiência das leis brasileiras. A falta de verbas destinadas à educação é tratada no terceiro parágrafo, no qual são apresentados argumentos sobre a imprudência estatal. O quarto e último parágrafo apresenta duas propostas de intervenção articuladas às ideias desenvolvidas nos parágrafos anteriores.

O texto apresenta continuidade temática e, além disso, o participante emprega, sem inadequações, um repertório variado de recursos coesivos, que articulam os argumentos, as partes do textos e as informações apresentadas, tanto no plano nominal, com o emprego de pronomes (“seu”, “sua”, “disso”, “desse”, “tal”) e palavras ou expressões sinônimas (“mulher”, “feminina”, “grupo”, “leis trabalhistas”, “documentos”), como no plano sequencial tanto intraparágrafo quanto interparágrafos (“Desse modo”, “Logo”, “Nesse sentido”, “A partir disso”, “Além disso”, “Portanto”). Também utilizou os sinais de pontuação, ligando palavras, orações e períodos complexos, com pertinência e de modo correto.

Como a prova pede proposta de intervenção, esse texto é finalizado com duas propostas que respeitam os direitos humanos. Elas permeiam o texto e são decorrentes do desenvolvimento da argumentação. Essas propostas são detalhadas, mostram o quê e como devem ser realizadas, quem vai realizar o quê foi proposto e qual será o efeito dessas ações de intervenção.

Conclui-se que o participante contemplou, em seu texto, integralmente e com excelência, todas as partes da proposta de redação.

Fonte: INEP, A redação no Enem 2024: cartilha do participante, página 64 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.