Redação nota 1000 do Enem 2023: Letícia Vicente da Silva
Como símbolo da discriminação feminina no Brasil, o papel social da mulher, originado e consolidado na colonização portuguesa, é caracterizado pelo trabalho, exclusivamente, doméstico, haja vista que a escravização de indígenas e de africanos restringiu as suas funções ao labor do lar — como cozinheiras, faxineiras e até cuidadoras de crianças e dos senhores de engenho. Nesse contexto, é válido ressaltar que, embora não seja um tópico de constante discussão, o serviço das mulheres, especificamente o de cuidar de outras pessoas, é inviabilizado pela desvalorização e pela invisibilidade recebidas da sociedade, sendo uma marca do desafio enfrentado por essa minoria cotidianamente. Ademais, torna-se viável relacionar essa complicação à perpetuação de valores preconceituosos e à precarização dessa atividade laboral.
Nessa perspectiva, é possível citar que a criação de estereótipos agrava a permanência de raízes estruturais, tradicionalmente, discriminatórias, uma vez que a mulher se torna uma figura funcional padronizada. Sob esse viés, como afirma a escritora contemporânea Chimamanda Adichie, grupos minoritários são marginalizados pelo corpo social devido às características pré-estabelecidas sobre eles, de forma que a imagem feminina seja um exemplo dessa situação ao ser relacionada, constantemente, ao trabalho de cuidado com uma conotação social negativa. Nessa conjuntura, é perceptível inferir que, analogamente à teoria de Chimamanda, a associação das mulheres ao cuidado, comunitário ou doméstico, é histórico, cultural e literário, como retratado na obra de Letícia Wischezavi, “A casa das sete Mulheres” — que conta os 15 anos de Revolução Farroupilha pela visão de 7 mulheres destinadas a cuidar dos feridos —, servindo de exemplo para o reforço de estereótipos femininos nos diversos âmbitos sociais, principalmente, no laboral.
Outrossim, a precarização do trabalho de cuidado realizado pela mulher brasileira é um dos inúmeros desafios que essas profissionais enfretam diariamente, sendo um modo de invisibilizar a atuação no mercado profissional. Sob essa ótica, segundo o sociólogo Ricardo Antunes, a sociedade atual possui uma tendência de precarizar as atividades laborais, influenciada pela bolha ideológica que a isola no comportamento capitalista de luta desigual frequente. Nesse prisma, pode-se concluir que, em consonância com o pensamento de Antunes, um grande desafio para quem vive desse exercício trabalhista á a desvalorização, já que, além das más remunerações financeiras e sociais, há o agravante da desigualdade de gênero que, historicamente, é uma pauta em discussão para erradicação.
Portanto, é indubitável constatar que medidas são necessárias para corrigir essa problemática. Assim, é imprescindível que o Ministério do Trabalho — órgão governamental responsável pela garantia de direitos — promova, por meio de incentivos fiscais, programas de fiscalização das garantias trabalhistas das mulheres cuidadoras, a fim de diminuir os desafios enfrentados por essas profissionais cotidianamente. Paralelamente, é dever da mídia — máximo canal de informações da atualidade — viabilizar, por intermédio de comerciais televisivos, campanhas de conscientização sobre o papel da mulher na sociedade, com o intuito de eliminar estereótipos associados às funções exercidas por ela. Dessa forma, será possível uma maior visibilidade do trabalho de cuidado e das múltiplas atividades que uma mulher exerce.
Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.
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Comentário da banca
A participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa, com períodos sintaticamente bem estruturados. O texto apresenta apenas um desvio de ortografia, pelo uso da palavra “enfretam” em vez de enfrentam.
Em relação ao texto dissertativo-argumentativo, a redação da participante demonstra excelente domínio, contemplando os princípios da estruturação do tipo textual, com discussão, desenvolvimento com justificativas que comprovam seu ponto de vista e conclusão. O tema, “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”, é apresentado logo no primeiro parágrafo quando a participante aborda “o papel social da mulher, originado e consolidado na colonização portuguesa”, caracterizado pelo trabalho doméstico, “como cozinheiras, faxineiras e até cuidadoras de crianças e dos senhores de engenho”. No segundo parágrafo, a participante trata da discriminação sofrida por grupos minoritários e cita a escritora Chimamanda Adichie ao abordar “a associação das mulheres ao cuidado, comunitário ou doméstico”. Ainda relaciona a obra “A casa das sete mulheres” como “exemplo para o reforço de estereótipos femininos nos diversos âmbitos sociais, principalmente, no laboral”. No terceiro parágrafo, dedicado à questão da precarização do trabalho de cuidado e aos desafios enfrentados por quem vive dele, a participante cita o sociólogo Ricardo Antunes. O texto se encerra com uma conclusão decorrente dos parágrafos anteriores, com duas propostas de solução para o problema, a cargo do Ministério do Trabalho e da mídia. Assim, nota-se que a participante abordou, de forma completa, o tema proposto em um texto dissertativo-argumentativo, conforme determina a proposta de redação.
O projeto do texto é claro, com informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto e desenvolvidos, de forma consistente e bem organizados, em defesa do ponto de vista. Primeiramente, a participante afirma que o papel social da mulher é discriminado no Brasil. Nesse sentido, ela cita a perpetuação de valores preconceituosos e a precarização do trabalho de cuidado realizado pelas mulheres. Em seguida, no segundo parágrafo, a participante desenvolve argumentos sobre a perpetuação de preconceitos ao tratar de estereótipos relacionados à figura feminina e ao trabalho de cuidado. Para tanto, apresenta afirmações da escritora Chimamanda Adichie acerca de grupos minoritários e da relação das mulheres ao trabalho de cuidado “com conotação social negativa”. Ainda, faz relação com a obra “A casa das sete mulheres”, da escritora Letícia Wierschowski, que retrata o trabalho de cuidado de mulheres durante a Revolução Farroupilha no Sul do Brasil. O terceiro parágrafo é dedicado à argumentação sobre a precarização do trabalho de cuidado realizado por mulheres, o que é colocado como um desafio que é cotidianamente enfrentado por elas. A argumentação é reforçada com uma afirmação, baseada nos estudos do sociólogo Ricardo Antunes, de que “a sociedade atual possui uma tendência de precarizar as atividades laborais, influenciada pela bolha ideológica” do capitalismo. O quarto parágrafo apresenta a conclusão, que é dedicada às duas propostas de intervenção, as quais estão articuladas à discussão desenvolvida no texto.
Além da continuidade temática presente no texto, a participante emprega, sem inadequações, um repertório variado de recursos coesivos, que articulam os argumentos, as partes do texto e as informações apresentadas, tanto no plano nominal, com o emprego de pronomes (“essa”, “dessa”, “eles”, “essas”) e palavras ou expressões sinônimas (“trabalho”, “labor”, “atividade laboral”, “mulher”, “imagem feminina”, “desafio”, “problemática”), como no sequencial, empregando conectivos em todos os parágrafos (“Nesse contexto”, “Ademais”, “Sob esse viés”, “Nessa conjuntura”, “Sob essa ótica”, “Nesse prisma”, “Paralelamente”, “Dessa forma”) e entre eles (“Nessa perspectiva”, “Outrossim”, “Portanto”). Também utilizou os sinais de pontuação, ligando palavras, orações e períodos complexos, com pertinência e de modo correto.
Como a prova pede proposta de intervenção, esse texto é finalizado com duas propostas que respeitam os direitos humanos, já descritas acima. Como pode ser observado, elas permeiam o texto e são decorrentes do desenvolvimento da argumentação. Essas propostas são detalhadas, mostram o quê e como devem ser realizadas, quem vai realizar o que foi proposto e qual será o efeito dessas ações de intervenção.
Conclui-se que a participante contemplou, em seu texto, integralmente e com excelência, todas as partes da proposta de redação.
Fonte: INEP, A redação no Enem 2024: cartilha do participante, página 52 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.