Redação nota 1000 do Enem 2023: Helena Moreira Alves

Tema: Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil

A dignidade da pessoa humana é um dos fundamentos da Constituição Federal, proposta no Artigo 1º. Esse fundamento pode ser garantido através do exercício do trabalho — que contribui para o desenvolvimento do indivíduo ao fornecê-lo condições para se sustentar na sociedade. Contudo, apesar de ser fundamento constitucional, percebe-se que, na realidade atual do país, a dignidade humana é violada pela invisibilização do trabalho de cuidado realizado por mulheres. Nesse prisma, deve-se analisar como a desvalorização do trabalho manual e a perpetuação do machismo são desafios para enfrentar essa realidade contrária à Constituição.

A princípio, cabe salientar que há uma influência cultural que explica a desvalorização do trabalho manual. Na Grécia Antiga, o trabalho braçal era considerado inferior porque os mais ricos — detentores de melhores condições de vida — eram pensadores, ou seja, eram aqueles que exerciam trabalho mental. Partindo da compreensão de que a história das sociedades ocidentais, como o Brasil, é baseada na cultura grega, é inevitável dizer que a desvalorização de serviços braçais — como o trabalho de cuidado realizado por mulheres que limpam, lavam, cozinham e cuidam de crianças e idosos — é resultado de uma cultura elitista enraizada nas sociedades do Ocidente. Dessa forma, mudar essa realidade estrutural é uma tarefa complexa, já que envolve uma questão cultural, porém é uma ação necessária para que o elitismo não favoreça a desqualificação de certos tipos de trabalho.

Outrossim, a perpetuação do machismo é uma arma que invibiliza o valor social das mulheres. Foucalt — filósofo francês — propôs os conceitos de silenciamento e normalização, explicando que a sociedade silencia alguns assuntos para perpetuar organizações de poder e normaliza problemas sociais quando eles se tornam repetitivos. Fazendo um paralelo com os estudos do filósofo, entende-se que o machismo foi normalizado pela sociedade devido a sua perpetuação ao longo da história e silenciado pelo patriarcado que queria manter-se no poder. Um exemplo pode ser visto quando o voto foi concedido às mulheres, que, de início, precisavam ser casadas com um homem para votar. Ou seja, até num pequeno indício de liberdade, as mulheres tiveram seu valor social silenciado pelo machismo, realidade que está — negativamente — normalizada na sociedade atual.

Infere-se, portanto, que modificar essa realidade discriminatória e opressora é missão da sociedade. Logo, cabe ao Governo — administrador do país — financiar as escolas para criar projetos de valorização a todos os tipos de trabalho e às mulheres, através de palestras, a fim de romper com o elitismo e o machismo que desconsideram as cuidadoras brasileiras. Talvez, assim, as mulheres não serão mais invisibilizadas e terão sua dignidade humana garantida.

Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.

Ver como o INEP publicou Redação de Helena Moreira Alves na cartilha do INEP
Comentário da banca

A participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa e de estruturação sintática do texto, com apenas dois desvios de escrita: um em razão do emprego de complemento direto em vez de indireto em “ao fornecê-lo condições para se sustentar na sociedade”; e outro na escrita da palavra “invibiliza” por inviabiliza.

No que se refere à estruturação do texto dissertativo-argumentativo, entende-se que o tema é abordado em sua totalidade no decorrer dos quatro parágrafos. No primeiro parágrafo, parte da Constituição Federal, que preconiza a garantia a dignidade do cidadão ao garantir-lhe trabalho remunerado, para afirmar que esse princípio não está sendo respeitado devido à invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher. Os dois desafios para o enfrentamento destacados nessa introdução são a desvalorização do trabalho manual e a perpetuação do machismo. No segundo parágrafo, as raízes históricas da divisão social do trabalho no Ocidente, com origem na Grécia Antiga, são apontadas como uma das causas pelas quais o trabalho de cuidado, entendido como “manual”, é desvalorizado, em uma perspectiva elitista da sociedade atual. Em seguida, no terceiro parágrafo, concentra-se na questão do machismo, apoiando-se nos conceitos de silenciamento e normalização, a partir de Michel Foucault. Assim, a participante associa a perpetuação do machismo, como causa para a invisibilidade do valor social das mulheres na sociedade, a um processo de silenciamento do problema da discriminação de gênero e normalização dessa violência. O parágrafo final fecha o texto com uma proposta de conscientização contra o elitismo e o machismo a ser executada pelo governo federal nas escolas.

Percebe-se, ao longo da redação, a presença de um projeto de texto, com informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, em defesa do ponto de vista apresentado. Na introdução, a participante indica os princípios que o problema da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pelas mulheres fere: a garantia da dignidade do cidadão por meio do trabalho adequadamente remunerado. Ao mesmo tempo, anuncia os tópicos dos dois argumentos principais: a divisão social do trabalho e o machismo. Nos parágrafos seguintes, discorre sobre esses tópicos. No segundo parágrafo, recorre à história para definir a divisão do trabalho entre “trabalho mental” e “trabalho manual”, destacando a desvalorização deste, que estaria associado ao trabalho de cuidado. No terceiro parágrafo, aborda o problema do machismo, que seria perpetuado em uma dinâmica de silenciamento e normalização, conceitos da obra do filósofo Michel Foucault. O machismo seria, assim, o motor da desvalorização da mulher na sociedade. A conclusão do texto, com uma proposta de conscientização contra o machismo, está associada a essa discussão.

O texto apresenta continuidade temática e, além disso, a participante emprega, sem inadequações, um repertório variado de recursos coesivos, que articulam os argumentos, as partes do textos e as informações apresentadas, tanto no plano nominal, com o emprego de pronomes (“Esse fundamento”, “aqueles que exerciam trabalho”, “sua perpetuação”) e palavras ou expressões sinônimas (“serviços” por “trabalhos”, “sociedades ocidentais” por “Ocidente”), como no plano sequencial (“Contudo”, “A princípio”, “Dessa forma”). Também utilizou os sinais de pontuação, ligando palavras, orações e períodos complexos, com pertinência e de modo correto.

Como a prova pede proposta de intervenção, esse texto é finalizado com uma proposta que respeita os direitos humanos, conforme descrito acima. A proposta, como se nota, permeia o texto e decorre do desenvolvimento da argumentação. É detalhada, mostra o quê e como deve ser realizada, quem vai realizar o que foi proposto e qual será o efeito dessa ação de intervenção.

Conclui-se que a participante contemplou, em o seu texto, integralmente e com excelência, todas as partes da proposta de redação.

Fonte: INEP, A redação no Enem 2024: cartilha do participante, página 49 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.