Redação nota 1000 do Enem 2023: Ana Luiza Teodoro Coutinho Loureiro

Tema: Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil

Um dos contos presentes no livro “Laços de Família”, de Clarice Lispector, acompanha a epifania da personagem Ana ao fugir de seus afazeres domésticos. Ela, que se via sentenciada a cuidar da casa e dos filhos, assemelha-se a muitas mulheres brasileiras, que exercem essas e outras tarefas diariamente, sem valorização e, até mesmo, sem remuneração. Nesse sentido, cabe analisar as causas socioeconômicas da invisibilidade do trabalho de cuidado no Brasil contemporâneo.

Em primeira perspectiva, a sociedade limita a mulher e sua função social ao ambiente caseiro e à realização de cuidados especiais. Isso ocorre porque, de acordo com o corpo social estabelecido, a essência cuidadosa é algo inerente ao feminino, muitas vezes associada à maternidade. Todavia, essa característica é construída e imposta às mulheres, que são frequentemente moldadas — assim como elucidado por Simone de Beauvoir: “Não se nasce mulher, torna-se”. Esse cenário é instigado pela cultura patriarcal e machista da nação, que atribui o cuidado e o lar somente ao sexo feminino. Desse modo, esse trabalho é visto como uma obrigação da mulher e não como um trabalho de fato, o que, por conseguinte, gera a desvalorização de tão importante exercício.

Ademais, o cuidado não é percebido com valor de mercado. Isso, porque não é uma atividade altamente lucrativa e produtiva, do ponto de vista mercadológico, o que, segundo Byung Chul-Han em “A sociedade do cansaço”, são fatores valorizados nos dias atuais. Esse panorama se dá pela lógica capitalista que norteia as relações de trabalho no mundo hoje, priorizando o lucro de indústrias e empresas em detrimento do cuidado com pessoas — majoritariamente exercido por mulheres. Consequentemente, há a má remuneração dessa ocupação, o que afeta a igualdade de gênero na inserção no mercado de trabalho e atrapalha a emancipação feminina.

Portanto, fazem-se evidentes as matrizes da invisibilidade do trabalho de cuidado em solo nacional. Logo, não se deve hesitar: são necessárias medidas para a erradicação da problemática. É responsabilidade, então, do Ministério da Educação — órgão federal que gere o ensino brasileiro — alterar a estrutura machista e patriarcal nas salas de aula. Isso pode ser feito por meio da inserção na Base Nacional Comum Curricular de formas de empoderamento feminino como assunto obrigatório na formação cidadã. Essa mudança deve ser alcançada com a finalidade de valorizar o trabalho exercido por mulheres, principalmente os mais invisíveis, como o de cuidado. Outrossim, cabe ao Governo Federal aumentar o salário mínimo atual, com o objetivo de garantir uma remuneração adequada a todos, bem como às mulheres que se ocupam com o cuidado, favorecendo suas independências financeiras. Quem sabe, assim, todas as “Anas” que cuidam do Brasil tornar-se-ão visíveis, valorizadas e prestigiadas.

Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.

Ver como o INEP publicou Redação de Ana Luiza Teodoro Coutinho Loureiro na cartilha do INEP
Comentário da banca

A participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa, com períodos sintaticamente bem estruturados, com apenas um desvio quanto ao uso da pontuação, uma vez que não empregou a vírgula antes da expressão “e não”no último período do terceiro parágrafo e com uma grafia incorreta, o vocábulo salário-mínimo, que aparece no texto grafado sem o hífen (salário mínimo).

A redação da participante demonstra excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo, com discussão, desenvolvimento, com justificativas que comprovam seu ponto de vista, e conclusão. O tema, “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”, é abordado no primeiro parágrafo, quando a participante recorre ao texto ficcional de Clarice Lispector para ilustrar a situação da mulher cujo trabalho de cuidado que realiza é desvalorizado, inclusive pela falta de remuneração. Nessa introdução, a participante anuncia que sua análise permeará as causas socioeconômicas desse quadro de desvalorização. Nos dois parágrafos seguintes, analisa-se, primeiro, as causas associadas às limitações sociais impostas às mulheres, entre elas, a obrigação de realizarem trabalho de cuidado e, em seguida, a desvalorização do trabalho de cuidado em si, que leva a uma divisão social injusta do ponto de vista de gênero. Para a primeira linha argumentativa, a participante recorre ao processo de tornar-se mulher desenvolvido por Simone de Beauvoir e, para o segundo, à produtividade demandada na esfera do trabalho, criticada por Byung-Chul Han. Por fim, a conclusão do texto propõe duas soluções possíveis: a primeira relaciona-se à educação, para a tomada de consciência do problema do machismo; e a segunda, à esfera econômica, com a remuneração adequada de quem realiza o trabalho de cuidado. Assim, nota-se que a participante abordou, de forma completa, o tema proposto em um texto dissertativo-argumentativo, conforme determina a proposta de redação.

O projeto do texto é claro, com informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto e desenvolvidos, de forma consistente e bem organizados, em defesa do ponto de vista. Primeiramente, recorre a um conhecido conto de Clarice Lispector, “Amor”, cuja personagem Ana se vê aprisionada na realização do trabalho de cuidado da família, como forma de anunciar a discussão do segundo parágrafo sobre os papéis sociais impostos à mulher. Ainda na introdução, a participante indica que tratará dos desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher de uma perspectiva socioeconômica, que é o foco do terceiro parágrafo do texto. Desse modo, o projeto de texto se desdobra nas discussões anunciadas, recorrendo, principalmente, à filosofia, com citações a Simone de Beauvoir e Byung-Chul Han, para fundamentar o ponto de vista defendido. No parágrafo final, a participante conclui, como já mencionado, com proposta de ações do Ministério da Educação e do governo federal. Ao Ministério da Educação caberia o combate à discriminação das mulheres, com alteração da Base Nacional Comum Curricular para inserir “formas de empoderamento feminino”. Já o governo federal deveria se empenhar no aumento salarial para valorizar e tornar visíveis as trabalhadoras do cuidado.

Além da continuidade temática presente no texto, a participante emprega, sem inadequações, um repertório variado de recursos coesivos, que articulam os argumentos, as partes do texto e as informações apresentadas, tanto no plano nominal, com o emprego de pronomes (“Ela, que se via”, “dessa ocupação”) e palavras ou expressões sinônimas (“sexo feminino” por “mulheres”, “caseiro” por “doméstico”), como no sequencial (“Nesse sentido”, “porque”, “Outrossim”). Também utilizou os sinais de pontuação, ligando palavras, orações e períodos complexos, com pertinência e de modo correto.

Como a prova pede proposta de intervenção, esse texto é finalizado com duas propostas que respeitam os direitos humanos, ambas descritas acima. Como pode ser observado, elas permeiam o texto e são decorrentes do desenvolvimento da argumentação. Essas propostas são detalhadas, mostram o quê e como devem ser realizadas, quem vai realizar o que foi proposto e qual será o efeito dessas ações de intervenção.

Conclui-se que a participante contemplou, em seu texto, integralmente e com excelência, todas as partes da proposta de redação.

Fonte: INEP, A redação no Enem 2024: cartilha do participante, página 46 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.