Redação nota 1000 do Enem 2023: Gabriela Larissa de Souza Gurgel
A filósofa contemporânea Hannah Arendt constata, por meio do conceito denominado “Banalidade do Mal”, a tendência existente nas sociedades no que tange à naturalização das mazelas presentes na coletividade. Nessa vertente, percebe-se que, na realidade brasileira atual, a proposição teórica mencionada se torna evidente, sobretudo quando são considerados os entraves para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pelas mulheres. Com efeito, hão de ser analisados os principais intensificadores da temática em questão: o machismo estrutural e a omissão estatal.
Diante desse cenário, a persistência de um ideário preconceituoso contra o público feminino potencializa a desvalorização de atividades relacionadas ao cuidado. Nesse viés, cabe citar que, durante o Período Colonial, houve a estruturação da família brasileira com base em valores patriarcais, de modo a haver a restrição do papel social da mulher à reprodução e aos afazeres domésticos. No entanto, apesar do lapso temporal, tais convenções ainda estão presentes no território nacional, haja vista que, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres se dedicaram mais que o dobro de horas semanais, em 2019, em comparação aos homens, às tarefas de cuidado. Nessa linha de raciocínio, atividades desse tipo — que incluem o trabalho com crianças, idosos e pessoas com deficiência, assim como as demandas domésticas — são comumente vistas como uma obrigação feminina, mas, lamentavelmente, recebem um grau inferior de reconhecimento e de importância. Isso se torna ainda mais claro pelo fato de muitas tarefas dessa natureza serem mal pagas ou não remuneradas, o que é extremamente preocupante em um país como o Brasil — o qual apresenta, em sua Constituição Federal de 1988, o direito à dignidade laboral.
Ademais, é imperioso destacar a postura inerte do Estado brasileiro quanto à tentativa de mitigar a invisibilização que acomete a problemática. Sob tal ótica, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman define como “Instituições Zumbi” aquelas entidades que mantêm suas estruturas vigentes, contudo não cumprem adequadamente seus papéis sociais. Nesse sentido, o aparato estatal nacional pode ser enquadrado na visão baumaniana, tendo em vista que o trabalho de cuidado colocado em prática pelas mulheres é decorrente, em muitos contextos, da intersecção de desigualdades socioeconômicas e étnicas. Dessa forma, enquanto não for combatida a conjuntura precária vivenciada por tantas meninas e mulheres, as quais se encontram, principalmente, em situação de pobreza e de vulnerabilidade, elas continuarão inseridas em um trabalho de cuidado sem o amparo estatal necessário.
Portanto, fazem-se urgentes medidas de enfrentamento aos impasses da temática supracitada. Assim, o Ministério do Trabalho e Emprego deve realizar um registro das principais áreas com presença do trabalho de cuidado. Tal iniciativa será efetivada por intermédio de profissionais do IBGE, os quais, em parceria com o Poder Executivo, irão às residências onde as mulheres exercem suas atividades e organizarão um auxílio financeiro para ajudá-las a garantir suas dignidades enquanto cidadãs. Isso poderá proporcionar melhores perspectivas de vida para o público feminino, de maneira a fragilizar o machismo e ampliar a igualdade.
Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.
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Comentário da banca
Com excelente domínio das convenções de escrita e de estruturação sintática dos períodos, o texto da participante não apresenta inadequações.
Com repertório sociocultural produtivo e pertinente à discussão, a participante aborda o tema de forma completa, demonstrando, também, excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo. No parágrafo introdutório, o ponto de vista defendido é evidenciado: a invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher decorre do machismo estrutural e da omissão estatal. Associa-se à invisibilidade desse tipo de trabalho a proposição teórica sobre a banalidade do mal, de Hannah Arendt, no que se refere à naturalização de uma mazela social. O segundo parágrafo analisa o modo como o machismo estrutural tem relação com a desigualdade de gênero no mundo do trabalho, valendo-se de dados do IBGE, que indicam que às mulheres, principalmente, cabe o trabalho de cuidado dentro e fora da esfera doméstica. A participante, assim, afirma que a remuneração que cabe a esses trabalhos é baixa ou nenhuma, o que contrariaria os direitos constitucionais garantidos. Já no terceiro parágrafo, o papel do Estado é destacado, já que ele é apontado como responsável por mitigar os efeitos dessa invisibilidade. Porém, amparando-se no conceito de “instituições zumbi”, de Zygmunt Bauman, a participante afirma que o Estado tem permanecido inerte diante dos desafios enfrentados pelas mulheres que realizam o trabalho de cuidado, inseridas em contexto de vulnerabilidade social e econômica. O texto é concluído com as propostas para o Ministério do Trabalho e Emprego mapear quem faz o trabalho de cuidado, com o apoio do IBGE, e, assim, oferecer auxílio financeiro às mulheres que necessitarem.
Percebe-se, também, ao longo da redação, a presença de um projeto de texto com informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, desenvolvidos de forma consistente e bem organizados em defesa do ponto de vista. No primeiro parágrafo, a naturalização do problema da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado por mulheres, associada ao conceito de banalidade do mal, é apresentada como consequência do machismo estrutural e da omissão do Estado. Em relação ao machismo estrutural, abordado no segundo parágrafo, a participante mobiliza dados do IBGE para tratar da divisão sexual do trabalho, destacando a questão da remuneração como a negação de um direito. Na sequência, a participante introduz o problema da omissão do Estado, que adquiria um caráter “zumbi”, conforme formulação de Zygmunt Bauman, ao não cumprir seu papel social, contribuindo para a manutenção de desigualdades, atravessadas por questões raciais, de classe e de gênero. Por fim, a participante finaliza o texto, no quarto parágrafo, com proposta voltada para a esfera governamental, em que o Ministério do Trabalho e Emprego mapearia as pessoas que realizam trabalho de cuidado, por meio de pesquisa realizada no âmbito do IBGE, permitindo a execução de política pública de distribuição de renda.
O texto apresenta continuidade temática e, além disso, a participante articula, sem inadequações, um repertório variado de recursos coesivos, que articulam os argumentos, as partes do textos e as informações apresentadas, tanto no plano nominal, com o emprego de pronomes (“em suas”, “seus papéis”, “às residências onde”) e palavras ou expressões sinônimas (“tais convenções” por “valores patriarcais”, “proposição teórica” por “conceito”), como no sequencial (“Nessa vertente”, “Ademais”, “Portanto”). Também utilizou, com pertinência e de modo correto, os sinais de pontuação, ligando palavras, orações e períodos complexos.
Como a prova pede proposta de intervenção, esse texto é finalizado com uma proposta que respeita os direitos humanos, conforme descrito acima. A proposta permeia o texto e é decorrente do desenvolvimento da argumentação em torno da valorização do trabalho, especialmente no que se refere à remuneração. A proposta, que é detalhada, mostra o quê e como deve ser realizada a intervenção social, quem vai realizar o que foi proposto e qual será o efeito da ação de intervenção.
Conclui-se que a participante contemplou, em seu texto, integralmente e com excelência, todas as partes da proposta de redação.
Fonte: INEP, A redação no Enem 2024: cartilha do participante, página 43 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.