Redação nota 1000 do Enem 2023: Lucas Malta de Carvalho

Tema: Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil

A Constituição Federal de 1988, documento jurídico mais importante do país, garante o trabalho remunerado e a dignidade humana como direitos de todo cidadão brasileiro, além de estabelecer a igualdade entre os gêneros masculino e feminino na sociedade. Entretanto, nota-se que tal prerrogativa não tem se reverberado na prática, visto que ainda há uma invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil, o qual, muitas vezes, não apresenta retorno financeiro. Portanto, faz-se necessária a análise dos principais fatores que contribuem para esse triste cenário: o machismo e o descaso estatal.

Em primeira análise, é importante destacar que a mulher ocupa uma posição subjugada na sociedade brasileira desde o período colonial, sendo encarregada dos afazeres domésticos e dos cuidados familiares. A partir desse contexto, após anos de inferiorização, as mulheres conquistaram diversos direitos sociopolíticos, como o direito ao voto e o trabalho remunerado. Todavia, mesmo com essas conquistas, ainda é notável que existe um machismo estrutural na sociedade contemporânea, já que, segundo o IBGE, as mulheres gastam o dobro de tempo com tarefas de cuidado, quando comparadas aos homens. Nesse sentido, por ser uma tradição enraizada na sociedade, o trabalho de cuidado realizado pela população feminina é ignorado por grande parte das pessoas.

Ademais, é imperioso ressaltar que a invisibilidade e a desvalorização desse tipo de trabalho resultam, em alguns casos, na falta de remuneração, o que contraria o direito estabelecido na Constituição. De acordo com o filósofo Nicolau Maquiavel, o principal objetivo do governante é a manutenção do poder, deixando em segundo plano a busca pelo bem comum. Assim, é evidente que o Estado não se preocupa com a garantia dos direitos das mulheres, o que reflete na ausência de políticas públicas que assegurem uma remuneração digna àquelas que trabalham. Dessa forma, as mulheres se encontram desamparadas, ao mesmo tempo, pela sociedade e pelo governo.

Portanto, é necessário promover ações concretas, as quais alterem o quadro de invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela população feminina. Logo, cabe às emissoras de TV, as quais são grandes formadoras de opinião da sociedade, realizar campanhas sobre a importância de lutar contra o machismo, por meio de anúncios publicitários, a fim de desconstruir ideias de subjugação presentes no Brasil contemporâneo. Além disso, o Governo Federal deve fiscalizar as relações de trabalho para garantir a remuneração feminina.

Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.

Ver como o INEP publicou Redação de Lucas Malta de Carvalho na cartilha do INEP
Comentário da banca

O participante demonstra domínio das convenções da escrita e da correta estruturação sintática dos períodos. O texto apresenta uma falha no primeiro parágrafo, quando se verifica o emprego inadequado da partícula “se” com o verbo “reverberar” e um desvio quanto ao emprego de iniciais minúsculas em “Período Colonial”, no segundo parágrafo.

Quanto ao tipo textual, o participante revela ter domínio do texto dissertativo-argumentativo. Já no primeiro parágrafo, apresenta os elementos do tema de forma completa, com o ponto de vista que pretende defender: a invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil está relacionada ao machismo e ao descaso estatal. O desenvolvimento do texto ocorre nos dois parágrafos seguintes. No segundo parágrafo, aborda o machismo como componente histórico da sociedade brasileira, que remonta ao processo colonial. No terceiro, a argumentação concentra-se na omissão do Estado na garantia de condições salariais equânimes entre os diferentes tipos de trabalho e entre homens e mulheres. O texto é finalizado com duas propostas de ações para o enfrentamento dos desafios: a conscientização sobre os problemas decorrentes do machismo na sociedade e a fiscalização das relações de trabalho para garantia de remuneração adequada.

Percebe-se, também, ao longo da redação, a presença de um projeto de texto, com informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, desenvolvidos de forma consistente e bem organizados em defesa do ponto de vista. Na abertura do texto, o participante recorre à Constituição Federal para afirmar que as garantias de trabalho remunerado e de dignidade não estão sendo protegidas como direitos do cidadão brasileiro. Por isso, a invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil tem no Estado um dos responsáveis, mas concede também um papel nesse cenário ao machismo, como um aspecto estrutural. O segundo parágrafo indica a origem do machismo como herança colonial, afirmando que, mesmo com a conquista de direitos, como o trabalho remunerado, as desigualdades permanecem. Ainda no tópico das desigualdades, o participante retoma, no terceiro parágrafo, a garantia constitucional do direito ao trabalho remunerado, para indicar que ela é descumprida quando se trata do trabalho de cuidado. Destaca, ainda, que os governantes não têm conseguido garantir os direitos trabalhistas das mulheres. Como solução para os desafios da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher, o participante propõe a conscientização contra o machismo, por meio de campanha na mídia, e a fiscalização das relações trabalhistas.

O texto apresenta continuidade temática e, além disso, o participante apresenta, sem inadequações, um repertório variado de recursos coesivos, que articulam argumentos, partes do textos e as informações apresentadas, tanto no plano nominal, com o emprego de pronomes (“o qual”, “a qual”, “àquelas”) e palavras ou expressões sinônimas (“direitos” por “prerrogativas”), quanto no sequencial (“Portanto”, “Todavia”, “Ademais”), assim como no emprego adequado e correto dos sinais de pontuação, ligando palavras, orações e períodos complexos.

Como a prova pede proposta de intervenção que respeite os direitos humanos, esse texto é finalizado com duas propostas que cumprem esse requisito, ambas descritas anteriormente. Elas permeiam o texto e são decorrentes do desenvolvimento da argumentação. Essas propostas são detalhadas, mostram o quê e como devem ser realizadas, quem vai realizar o que foi proposto e qual será o efeito dessas ações de intervenção.

Conclui-se que o participante contemplou, em seu texto, integralmente e com excelência, todas a partes da proposta de redação.

Fonte: INEP, A redação no Enem 2024: cartilha do participante, página 40 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.