Redação nota 1000 do Enem 2022: Maria Fernanda Simionato de Lemes
Historicamente, a partir da implementação das missões jesuíticas no Brasil colonial, os povos nativos tiveram suas tradições suprimidas e o seu conhecimento acerca das peculiaridades territoriais menosprezado. Na contemporaneidade, a importância dessas populações configura um fator indispensável à compreensão da diversidade étnica do nosso país. Contudo, ainda persistem desafios à valorização dessas comunidades, o que interfere na preservação de seus saberes. Logo, urgem medidas estatais que promovam melhorias nesse cenário.
Sob esse viés, é válido destacar a fundamentalidade dos povos tradicionais como detentores de uma pluralidade histórica e cultural, que proporciona a disseminação de uma vasta sabedoria na sociedade. Nesse sentido, o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) afirma as heranças tradicionais desses grupos como constituintes do patrimônio imaterial brasileiro. Dessa forma, sabe-se que a contribuição desses indivíduos para a formação intelectual do corpo social engloba práticas de sustentabilidade, agricultura familiar e, inclusive, confere a eles uma participação efetiva na economia do país. Assim, evidencia-se a extrema relevância dessas comunidades para a manutenção de conhecimentos diferenciados, bem como para a evolução da coletividade.
Entretanto, a falta de representantes políticos eleitos para essa classe ocasiona a desvalorização das suas necessidades sociais, que não são atendidas pelos demais legisladores. Nesse contexto, a Constituição Federal assegura direitos inalienáveis a todos os cidadãos brasileiros, abordando o dever de inclusão de povos tradicionais nas decisões públicas. Desse modo, compreende-se que a existência de obstáculos para o reconhecimento da importância de populações nativas se relaciona à ineficácia na incorporação de representantes que sejam, de fato, interessados na perpetuação de saberes e técnica ancestrais propagados por esses grupos. Sendo assim, comprova-se a ocorrência de um grave problema no âmbito coletivo, o qual impede a garantia plena dos direitos básicos dessas pessoas.
Diante do exposto, denota-se a urgência de propostas governamentais que alterem esse quadro. Portanto, cabe ao Estado — cuja função principal é a proteção dos direitos de seus cidadãos — a implantação de mudanças no sistema eleitoral, por meio de criação de cotas rígidas para eleição de políticos oriundos de localidades nativas. Tal reestruturação terá como finalidade a valorização de povos tradicionais, reconhecendo a sua fundamentalidade na composição histórica e cultural da sociedade brasileira.
Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.
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Comentário da banca
A participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa. A redação é caracterizada pelo excelente domínio das estruturas sintáticas, sem desvios da norma.
A participante demonstra igualmente excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo. O tema é desenvolvido por meio da defesa da importância do reconhecimento, por parte do Estado, da importância dos saberes dos povos nativos para a compreensão da diversidade étnica que constitui o Brasil. Na introdução, é citado o histórico desprezo pelos conhecimentos dos indígenas sobre o território, desde o período colonial, para se constatar que o reconhecimento de sua importância requer uma mudança de postura do Estado. No segundo parágrafo, a participante cita o papel do IPHAN no reconhecimento da relevância das heranças dos grupos tradicionais do ponto de vista cultural e econômico, devido aos saberes sobre o cultivo da terra e à preservação do meio ambiente. No terceiro parágrafo, introduz-se um desdobramento da argumentação anterior, quando a participante aponta a falta de representação política de cidadãos das comunidades tradicionais, que poderiam defender seus pontos de vista institucionalmente. Por fim, no último parágrafo, a participante elabora proposta de intervenção relacionada a uma reforma política que amplie a participação dessas comunidades na esfera pública institucional. Desse modo, com referência ao arcabouço científico e legal brasileiro, bem como a fatos históricos, a redação demonstra, além do excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo, a abordagem completa do tema com uso de repertório sociocultural produtivo.
Percebe-se, também, ao longo da redação, a presença de um projeto de texto, com informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, desenvolvidos de forma consistente e bem-organizados em defesa do ponto de vista. Primeiramente, a participante reconhece a permanência de uma perspectiva histórica que oprime e silencia as vozes e os saberes dos povos tradicionais, problema que requer uma ação do Estado. O segundo parágrafo avança na construção desse argumento, recorrendo à autoridade do IPHAN para sustentar a importância dessas comunidades, tanto do ponto de vista cultural quanto econômico. O terceiro parágrafo, por sua vez, indica outro problema, preparando o leitor para a proposta de intervenção que concluirá o texto: o argumento é de que a falta de representação política perpetua o silenciamento dessas comunidades e a negligência em relação aos seus saberes. Assim, no parágrafo final, a participante conclui que só uma política afirmativa para ampliar essa participação poderá solucionar o problema. Desse modo, a seleção e a articulação dos argumentos garantem ao texto um projeto coerente e autoral.
Em relação aos aspectos coesivos, já notados na continuidade temática, observa-se, nessa redação, um repertório diversificado de recursos coesivos, sem inadequações. No plano nominal, há o emprego de pronomes (“o que”, “eles”, “o qual”) e palavras e expressões sinônimas ou equivalentes (“dessas populações”, “dessas comunidades”, “esses grupos”, “Tal reestruturação”). No plano sequencial, há o emprego de marcadores argumentativos e conectivos (“Entretanto”, “Nesse sentido”, “Dessa forma”). Também utilizou os sinais de pontuação ligando palavras, orações e períodos complexos com pertinência e de modo correto.
Por fim, a participante elabora proposta de intervenção completa, que é avaliada como muito boa. Objetiva, a proposta está articulada à discussão desenvolvida no texto e apresenta uma ação: proposição de políticas afirmativas, por meio de mudanças no sistema eleitoral, para a inclusão de representantes dos povos e comunidades tradicionais.
Fonte: INEP, A redação do Enem 2023: cartilha do participante, página 46 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.