Redação nota 1000 do Enem 2022: Juliana Moreau de Almeida Soares
Declarado patrimônio imaterial brasileiro, o ofício das quebradeiras de coco é exemplo da preservação de conhecimentos populares que marcam a cultura, a economia e as relações interpessoais dos povos envolvidos. Similarmente, muitos outros grupos tradicionais possuem saberes de extrema importância e, no entanto, não recebem o respeito merecido, o que cria uma urgente necessidade de promover a valorização dessas comunidades. Nesse contexto, é válido analisar como a negligência estatal e a existência de uma visão capitalizada da natureza representam desafios para a resolução de tal problemática.
Diante desse cenário, nota-se a inoperância governamental como fator agravante do descaso em relação às culturas tradicionais. Para a pensadora contemporânea Djamilla Ribeiro, é preciso tirar as situações da invisibilidade para que soluções sejam encontradas, perspectiva que demonstra a falha cometida pelo Estado, uma vez que existe uma forte carência de conscientização popular sobre o assunto – causada pelo baixo estímulo governamental a essas discussões, tanto nas salas de aula quanto no âmbito político. Nesse sentido, fica evidente que, por não dar notoriedade à luta desses povos, o governo permite o esquecimento e a minimização de seus costumes, o que gera não somente a massiva perda cultural de um legado cultivado por gerações, mas também o prejuízo da desestruturação econômica de locais baseados nessas técnicas.
Ademais, percebe-se a influência de uma ideologia que mercantiliza o ambiente na manutenção de tal entrave. “Para a ganância, toda natureza é insuficiente” – a frase, do filósofo Sêneca, critica uma concepção recorrente na atual conjuntura brasileira, segundo a qual o meio-ambiente é visto como um objeto para o lucro humano. Logicamente, tal visão mercadológica se choca com o modo de vida experienciado pelos povos tradicionais, que vivenciam um relacionamento respeitoso e recíproco com o ecossistema, fazendo uso de seus recursos sem fins exploratórios. Por conseguinte, as comunidades que vivem dessa intimidade com a natureza são altamente reprimidas pelas classes que se beneficiam do uso capitalizado e desigual do meio natural, como grandes empresas pecuaristas, que lucram da concentração de terras e do monopólio comercial, o que exclui — ainda mais — a população originária e resulta no declínio de sua cultura.
Portanto, cabe ao Estado — em sua função de promotor do bem-estar social — estabelecer uma ampla fiscalização do uso comercial do meio-ambiente em áreas com maior volume de povos tradicionais, mediante a criação de mais delegacias especializadas no setor ambiental, a fim de garantir a preservação do estilo de vida desses indivíduos. Outrossim, é dever do Governo Federal organizar uma campanha de valorização de tais grupos, por meio da divulgação de informativos em redes sociais e da realização de palestras em escolas, de modo a enfatizar a contribuição socioambiental desses cidadãos, para, assim, conscientizar a população e possibilitar a exaltação das culturas tradicionais brasileiras.
Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.
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Comentário da banca
A participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa. A redação é caracterizada pelo excelente domínio das estruturas sintáticas e contém desvios pontuais, dentro do limite admitido pela banca, como o uso do hífen na expressão meio ambiente.
A participante demonstra igualmente excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo. O tema é desenvolvido por meio da defesa da necessidade de se promover a valorização de comunidades e povos tradicionais, reconhecendo seu papel em um projeto de desenvolvimento sustentável, e, ao mesmo tempo, constatando que há negligência no modo como o Estado e a sociedade civil lidam com essas populações, problema para o qual se elabora uma proposta. Na introdução, a importância da preservação dos saberes tradicionais é exemplificada com a comunidade das quebradeiras de coco e contrastada com a negligência do Estado e a exploração comercial da natureza. No segundo parágrafo, a participante destaca a invisibilidade das comunidades e povos tradicionais e destaca, a partir do pensamento de Djamila Ribeiro, a necessidade de se agir de forma concreta para tirá-los dessa situação, com ênfase na responsabilidade do governo nesse processo. No terceiro parágrafo, coloca-se em relevo o conflito entre os modos de vida das comunidades e povos tradicionais, respeitoso com o meio ambiente, o que a participante relaciona à citação do filósofo Sêneca, e a exploração predatória feita por grandes empresas. Por fim, no último parágrafo, a participante elabora proposta de intervenção para solucionar o problema por meio do fortalecimento das comunidades. Assim, mobilizando exemplos concretos, como o das quebradeiras de coco, bem como recorrendo a citações de filósofos, como Sêneca e Djamila Ribeiro, a redação demonstra, além do excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo, a abordagem completa do tema com uso de repertório sociocultural produtivo.
Percebe-se, também, ao longo da redação, a presença de um projeto de texto, com informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, desenvolvidos de forma consistente e bem-organizados em defesa do ponto de vista. Primeiramente, a participante se posiciona reafirmando a importância e a necessidade da preservação dos saberes das comunidades e povos tradicionais, ao mesmo tempo em que acusa negligência do Estado e da sociedade nessa proteção. O segundo parágrafo retoma o problema da negligência quanto à proteção, associando-o à invisibilidade que tem origem na omissão do Estado no seu papel de conscientizar e promover a valorização dos saberes tradicionais. O terceiro parágrafo, por sua vez, recupera a ideia de que a sociedade, por meio das grandes empresas pecuaristas, entra em confronto com os modos de vida das comunidades e povos tradicionais, contribuindo para o seu apagamento e para colocá- los em risco. No parágrafo final, a participante conclui que só uma efetiva ação do Estado, para punir ações criminosas que representem risco às comunidades e para conscientizar a sociedade em geral para a importância dos povos tradicionais, poderá lhes dar proteção e visibilidade. Desse modo, a seleção e a articulação dos argumentos garantem ao texto um projeto coerente e autoral. Quanto à coesão, além da continuidade temática, observa-se, nessa redação, um repertório diversificado de recursos coesivos, sem inadequações. No plano nominal, há o emprego de pronomes (“o que”, “seus”) e palavras e expressões sinônimas ou equivalentes (“povos envolvidos”, “dessas comunidades”, “desses cidadãos”, “seus costumes”, “nessas técnicas”). No plano sequencial, há o emprego de marcadores argumentativos e conectivos entre (“Diante desse cenário”, “Ademais”, “Portanto”, “Similarmente”, “nesse contexto”, “No entanto”, “para”, “assim”). Também utilizou os sinais de pontuação ligando palavras, orações e períodos complexos com pertinência e de modo correto.
Por fim, a participante elabora proposta de intervenção muito boa: concreta, detalhada, articulada à discussão desenvolvida no texto e que respeita os direitos humanos. A proposta apresentada sugere duas ações: maior fiscalização no setor ambiental, por meio de criação de delegacias especializadas, e campanhas de conscientização para promover a valorização das comunidades e povos tradicionais e seus saberes.
Fonte: INEP, A redação do Enem 2023: cartilha do participante, página 44 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.