Redação nota 1000 do Enem 2022: Carina Beatriz de Souza Moura

Tema: Desafios para a valorização de comunidades e povos tradicionais no Brasil

Na segunda metade do século XVIII, os escritores da primeira fase do Romantismo elevaram, de maneira completamente idealizada, o indígena e a natureza à condição de elementos personificados da beleza e do poder da pátria (quando, na verdade, os nativos continuaram vítimas de uma exploração desumana no momento em questão). Sem desconsiderar o fato temporal, hoje nota-se que, apesar das conquistas legais e jurídicas alcançadas, a exaltação dos indígenas e dos demais povos tradicionais não se efetivou no cenário brasileiro e continua restrita às prosas e poesias do movimento romântico. A partir desse contexto, é imprescindível compreender os maiores desafios para uma plena valorização das comunidades tradicionais no Brasil.

Nesse sentido, é inegável que o escasso interesse político em assegurar o respeito à cultura e ao modo de vida das populações tradicionais frustra a valorização desses indivíduos. Isso acontece, porque, como já estudado pelo sociólogo Boaventura de Sousa Santos, há no Brasil uma espécie de “Colonialismo Insidioso”, isto é, a manutenção de estruturas coloniais perversas de dominação, que se disfarça em meio a avanços sociais, mas mantém a camada mais vulnerável da sociedade explorada e negligenciada. Nessa perspectiva, percebe-se o quanto a invisibilização dos povos tradicionais é proposital e configura-se como uma estratégia política para permanecer no poder e fortalecer situações de desigualdade e injustiça social. Dessa forma, tem-se um país que, além de naturalizar as mais diversas invasões possessórias nos territórios dos povos tradicionais, não respeita a forma de viver e produzir dessas populações, o que comprova uma realidade destoante das produções literárias do Romantismo.

Ademais, é nítido que as dificuldades de promover um verdadeiro reconhecimento e valorização das comunidades tradicionais ascendem à medida que raízes preconceituosas são mantidas. De fato, com base nos estudos da filósofa Sueli Carneiro, é perceptível a existência de um “Epistemicídio Brasileiro” na sociedade atual, ou seja, há uma negação da cultura e dos saberes de grupos subalternizados, a qual ainda é mais reforçada por setores midiáticos. Em outras palavras, apesar da complexidade de cultura dos povos tradicionais, o Brasil assume contornos monoculturais, uma vez que inferioriza e “sepulta” os saberes de tais grupos, cujas relações e produções, baseadas na relação harmônica com a natureza, destoam do modelo ocidental, capitalista e elitista. Logo, devido a um notório preconceito, os indivíduos tradicionais permanecem excluídos socialmente e com seus direitos negligenciados.

Portanto, faz-se necessário superar os desafios que impedem a valorização das comunidades tradicionais no Brasil. Para isso, urge que o Poder Executivo — na esfera federal — amplie a verba destinada a órgãos fiscalizadores que visem garantir os direitos dos povos tradicionais e a preservação de seus territórios e costumes. Tal ação deve ser efetivada pela implantação de um Projeto Nacional de Valorização dos Povos Tradicionais, de modo a articular, em conjunto com a mídia socialmente engajada, palestras e debates que informem a importância de tais grupos em todos os 5570 municípios brasileiros. Isso deve ser feito a fim de combater os preconceitos e promover o respeito às populações tradicionais. Afinal, o intuito é que elas sejam tão valorizadas quanto os índios na primeira fase da literatura romântica.

Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.

Ver como o INEP publicou Redação de Carina Beatriz de Souza Moura na cartilha do INEP
Comentário da banca

A participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa. A redação é caracterizada pelo excelente domínio das estruturas sintáticas, com apenas um desvio da norma, na colocação do pronome “se” em “hoje nota-se que”.

A participante demonstra também excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo. O tema é desenvolvido por meio do posicionamento contra a violência da invisibilização dos povos e comunidades tradicionais bem como da discriminação de seus saberes. Na introdução, a idealização do indígena na literatura é citada ao lado de seu contraponto: a condição de vítimas de violências diversas vividas pelos indígenas. No segundo parágrafo, a participante cita o conceito de “colonialismo insidioso”, do sociólogo Boaventura Sousa Santos, no contexto da constatação de que a violência contra os povos indígenas é estratégica desde o período colonial, como forma de tomar desses povos os territórios e mantê-los sob jugo. No terceiro parágrafo, desenvolve-se a noção de epistemicídio, com referência à obra de Sueli Carneiro, como complementar às demais violências, caracterizando-se pela negação de culturas e saberes de povos subalternizados. Por fim, no último parágrafo, a participante elabora proposta de intervenção relacionada a estratégias de visibilização dos povos, na forma de conscientização da sociedade como um todo. Desse modo, com referência ao pensamento social sobre a permanência do colonialismo e a relação do país com os grupos sociais que a compõem, a redação demonstra, além do excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo, a abordagem completa do tema com uso de repertório sociocultural produtivo.

O projeto de texto fica evidente na articulação de informações, fatos e opiniões ao tema proposto, desenvolvido de forma consistente e bem-organizada em defesa do ponto de vista. Primeiramente, a participante acusa a contradição entre a representação literária idealizada dos indígenas na literatura brasileira e a violência que eles historicamente sofreram no país, defendendo a necessidade de uma maior valorização desses povos. O segundo parágrafo apresenta uma das formas de violência, argumentando que elas estão relacionadas a um projeto intencional de quem detém o poder para dominar território e controlar a população indígena, como parte de uma estratégia denominada “colonialismo insidioso”. O terceiro parágrafo soma a esse problema outra característica da sociedade, que é o epistemicídio brasileiro, caracterizado pela invisibilização e supressão dos saberes de povos subalternizados, que passam a ser tratados em uma perspectiva monocultural, a despeito de sua diversidade, justamente porque estabelecem uma relação mais harmônica com a natureza, destoando do modelo ocidental. Portanto, no parágrafo final, a participante conclui com proposta de criação de um projeto de valorização dos povos tradicionais, por meio de repressão à violência e promoção afirmativa das culturas dessas comunidades. Desse modo, a seleção e a articulação dos argumentos garantem ao texto um projeto coerente e autoral.

A coesão do texto é garantida não só pela continuidade temática, mas também pelo emprego de um repertório diversificado de recursos coesivos, sem inadequações. No plano nominal, há o emprego de pronomes (“que”, “a qual”, “elas”) e palavras e expressões sinônimas ou equivalentes (“os nativos”, “a camada mais vulnerável”, “indivíduos tradicionais”, “Tal ação”). No plano sequencial, há o emprego de marcadores argumentativos e conectivos (“A partir desse contexto”, “Nesse sentido”, “ou seja”). Também utilizou os sinais de pontuação ligando palavras, orações e períodos complexos com pertinência e de modo correto.

Por fim, a proposta elaborada pela participante é muito boa e está articulada à discussão desenvolvida no texto. Apresenta como ação a ampliação de verbas para que os órgãos fiscalizadores promovam um projeto, intitulado Projeto Nacional de Valorização dos Povos Tradicionais, para a organização de atividades de conscientização com abrangência em todo o território brasileiro, de modo a que os indígenas sejam efetivamente valorizados nas políticas públicas e não só na literatura.

Fonte: INEP, A redação do Enem 2023: cartilha do participante, página 48 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.