Questão 35 do ENEM 2021

1º dia · Linguagens, Códigos

Singular ocorrência

— Há ocorrências bem singulares. Está vendo aquela dama que vai entrando na igreja da Cruz? Parou agora no adro para dar uma esmola.

— De preto?

— Justamente; lá vai entrando; entrou.

— Não ponha mais na carta. Esse olhar está dizendo que a dama é uma recordação de outro tempo, e não há de ser muito tempo, a julgar pelo corpo: é moça de truz.

— Deve ter quarenta e seis anos.

— Ah! conservada. Vamos lá; deixe de olhar para o chão e conte-me tudo. Está viúva, naturalmente?

— Não.

— Bem; o marido ainda vive. É velho?

— Não é casada.

— Solteira?

— Assim, assim. Deve chamar-se hoje D. Maria de tal. Em 1860 florescia com o nome familiar de Marocas. Não era costureira, nem proprietária, nem mestra de meninas; vá excluindo as profissões e chegará lá. Morava na Rua do Sacramento. Já então era esbelta, e, seguramente, mais linda do que hoje; modos sérios, linguagem limpa.

ASSIS, M. Machado de Assis: seus 30 melhores contos. Rio de Janeiro: Aguilar, 1961.

No diálogo, descortinam-se aspectos da condição da mulher em meados do século XIX. O ponto de vista dos personagens manifesta conceitos segundo os quais a mulher

  1. A
    encontra um modo de dignificar-se na prática da caridade.
  2. B
    preserva a aparência jovem conforme seu estilo de vida.
  3. C
    condiciona seu bem-estar à estabilidade do casamento.
  4. D
    tem sua identidade e seu lugar referendados pelo homem.
  5. E
    renuncia à sua participação no mercado de trabalho.
Resolução comentada

O diálogo trata de uma mulher observada de longe por dois homens, que tentam "descobrir" quem ela é. Repare no método: eles só conseguem defini-la por meio de perguntas sobre sua relação com um homem e sobre sua posição social.

  1. Primeiro perguntam: "Está viúva?" e depois "O marido ainda vive?". Ou seja, supõem que ela só pode ser identificada como esposa ou viúva.
  2. Ao saber que não é casada, perguntam: "Solteira?". A resposta "Assim, assim" já sugere que a mulher não cabe nas categorias esperadas.
  3. Em seguida, a pista é dada por exclusão de profissões: "Não era costureira, nem proprietária, nem mestra de meninas". As ocupações femininas aceitas são listadas para serem descartadas, e a mulher se define pelo que não é.
  4. Além disso, a mulher é avaliada pelo corpo, pela idade e pela aparência ("moça de truz", "conservada"), sempre pelo olhar masculino.

Assim, a identidade e o lugar social da mulher só são reconhecidos pelo estado civil, pela relação com o marido e pelo julgamento dos homens que a observam. Isso corresponde à ideia de que sua identidade e seu lugar são referendados pelo homem.

A caridade (esmola) é só o gesto que a mostra na cena, não é o foco da conversa.

Alternativa D.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AA esmola é apenas o gesto que a mostra na cena; os personagens não a tratam como forma de dignificação.
  • BO comentário sobre ela estar "conservada" é pontual e não expressa a tese sobre a condição feminina.
  • CO texto não relaciona o bem-estar dela à estabilidade do casamento; ela nem é casada.
  • EO texto lista profissões que ela não exerceu, mas não fala em renúncia ao mercado de trabalho.

Assuntos: interpretação de texto, Machado de Assis, condição da mulher no século XIX.

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