Redação nota 1000 do Enem 2019: Augusto Fernandes Scapini
Aristóteles, grande pensador da Antiguidade, defendia a importância do conhecimento para a obtenção da plenitude da essência humana. Para o filósofo, sem a cultura e a sabedoria, nada separa a espécie humana do restante dos animais. Nesse contexto, destaca-se a importância do cinema, desde a sua criação, no século XIX, até a atualidade, para a construção de uma sociedade mais culta. No entanto, há ainda diversos obstáculos que impedem a democratização do acesso a esse recurso no Brasil, centrados na elitização do espaço público e causadores da insuficiência intelectual presente na sociedade. Com isso, faz-se necessária uma intervenção que busque garantir o acesso pleno ao cinema para todos os cidadãos brasileiros.
De início, tem-se a noção de que a Constituição Federal assegura a todos os cidadãos o acesso igualitário aos meios de propagação do conhecimento, da cultura e do lazer. Porém, visto que os cinemas, materialização pública desses conceitos, concentram-se predominantemente nos espaços reservados à elite socioeconômica, como os “shopping centers”, é inquestionável a existência de uma segregação das camadas mais pobres em relação ao acesso a esse recurso. Essa segregação é identificada na elaboração da tese da “subcidadania”, escrita pelo sociólogo Jessé Souza, que denuncia a situação de vulnerabilidade social vivida pelos mais pobres, cujos direitos são negligenciados tanto pela falta de ação do Estado quanto pela indiferença da sociedade em geral. Fica claro, então, que o acesso ao cinema não é um recurso democraticamente pleno no Brasil.
Como consequência dessa elitização dos espaços públicos, que promove a exclusão das camadas mais periféricas, é observado um bloqueio intelectual imposto a essa parte da população. Nesse sentido, assuntos pertinentes ao saber coletivo, que, por vezes, não são ensinados nas instituições formais de ensino, mas são destacados pelos filmes exibidos nos cinemas, não alcançam as mentes das minorias sociais, fato que impede a obtenção de conhecimento e, por conseguinte, a plenitude da essência aristotélica. Essa situação relaciona-se com o conceito de “alienação”, descrito pelo filósofo alemão Karl Marx, que caracteriza o estado de insuficiência intelectual vivido pelos trabalhadores da classe operária no contexto da Revolução Industrial, refletido na camada pobre brasileira atual.
Portanto, fica evidente a importância do cinema para a construção de uma sociedade mais culta e a necessidade da democratização desse recurso. Nesse âmbito, cabe ao Ministério da Educação e da Cultura promover um maior acesso ao conhecimento e ao lazer, por meio da instalação de cinemas públicos nas áreas urbanas mais periféricas – que deverão possuir preços acessíveis à população local –, a fim de evitar a situação de alienação e insuficiência intelectual presente nos membros das classes mais baixas. Desse modo, o cidadão brasileiro poderá atingir a condição de plenitude da essência, prevista por Aristóteles, destacando-se, logo, das outras espécies animais, através do conhecimento e da cultura.
Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.
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Comentário da banca
O participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa, uma vez que a estrutura sintática é excelente e não há presença de desvios ao longo do texto.
Em relação aos princípios da estruturação do texto dissertativo-argumentativo, percebe-se que o participante apresenta introdução em que expõe seu ponto de vista, desenvolvimento de justificativas que comprovam esse ponto de vista e conclusão que encerra a discussão, demonstrando excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo. O tema é abordado de forma completa, o que revela uma leitura cuidadosa da proposta de redação: já no primeiro parágrafo, o participante apresenta o assunto que será discutido, o cinema, e sua importância para a sociedade. A seguir, trata do problema específico relacionado à democratização do acesso ao cinema, proposto pelo tema da prova de redação, trazendo o ponto de vista de que os obstáculos que dificultam esse acesso estão ligados à elitização do espaço público. Há uso produtivo de repertório sociocultural pertinente à discussão proposta em mais de um momento do texto. No primeiro parágrafo, o pensamento de Aristóteles é utilizado para justificar a importância do cinema. No segundo parágrafo, o participante fundamenta sua argumentação na Constituição Federal, caracterizando o acesso à cultura como um direito, e nos estudos de Jessé Souza sobre a negação desse e outros direitos. Há ainda, no terceiro parágrafo, o uso do conceito de alienação, de Karl Marx, para auxiliar na caracterização do efeito causado pela falta de acesso ao cinema.
Ao longo da redação, há a presença de um projeto de texto estratégico, com informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, desenvolvidos de forma consistente e bem organizados em defesa do ponto de vista. Tendo, no primeiro parágrafo, apresentado a elitização do espaço público como causa da falta de democratização do acesso ao cinema e a “insuficiência intelectual” da população como consequência desse problema, o participante organiza esses dois aspectos em diferentes parágrafos e desenvolve-os detalhadamente. Assim, no segundo parágrafo, é explicado de que forma a elitização do espaço impede a democratização plena do acesso ao cinema e, no terceiro parágrafo, justifica-se a relação entre a falta de acesso ao cinema e o estado de “insuficiência intelectual” identificado pelo participante. Por fim, no quarto parágrafo, ele reflete sobre uma solução para a problemática, apresentado uma proposta muito bem articulada à sua discussão.
Em relação à coesão, encontra-se, nessa redação, um repertório diversificado de recursos coesivos, sem inadequações. Há articulação tanto entre os parágrafos (“Como consequência dessa elitização”, “Portanto”) quanto entre as ideias dentro de um mesmo parágrafo (1º parágrafo: “Nesse contexto”, “No entanto”, “Com isso”; 2º parágrafo: “Porém”, “esse recurso”, “cujos”; 3º parágrafo: “essa parte da população”, “mas”, “por conseguinte”; 4º parágrafo: “Nesse âmbito”, “a fim de”, “Desse modo”, entre outros).
Por fim, o participante elabora proposta de intervenção muito boa: concreta, articulada à discussão desenvolvida no texto, detalhada e que respeita os direitos humanos, ao propor que o Governo Federal, por meio de seus ministérios, aumente o alcance das salas de cinema.
Fonte: INEP, A redação do Enem 2020: cartilha do participante, página 45 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.