Redação nota 1000 do Enem 2019: Gustavo Lopes Teixeira

Tema: Democratização do acesso ao cinema no Brasil

No século XIX, os avanços tecnológicos e científicos proporcionaram às populações novas alternativas de lazer, dentre as quais se pode citar o cinema. No Brasil, atualmente, tal forma de diversão tem se destacado, uma vez que promove a interação com o público de maneira singular, isto é, gera muitas emoções aos indivíduos. Apesar disso, verifica-se que, em nosso país, o acesso ao cinema não é disponibilizado a todos os cidadão, seja pela falta de investimentos, seja pelo alto custo cobrado por empresas para assistir a um filme. Assim, tendo em vista a importância desse lazer, ele deve ter seu acesso democratizado, a partir da resolução de tais entraves.

Sob esse viés, pode-se apontar as poucas verbas direcionadas à construção e à manutenção de cinemas, especialmente nas pequenas cidades brasileiras, como uma das causas do problema em questão. Acerca disso, sabe-se que boa parte da população que vive em áreas rurais ou suburbanas sofre com a falta de acessibilidade a tal meio de diversão. Prova dessa realidade é o filme “Cine Hollyúde”, lançado no Brasil, o qual mostra a dificuldade das pessoas que habitam no interior em assistir à primeira obra cinematográfica da cidade, devido à precariedade estrutural do cinema local. Tal cenário também é observado fora da ficção, visto que, por causa dos poucos investimentos, indivíduos das regiões pobres do país possuem mínima ou nenhuma interação com essa forma de lazer.

Ademais, nota-se, ainda, uma intensa elitização dos cinemas, porquanto o preço cobrado pelo ingresso de uma sessão é alto, o que limita a ida a esses lugares de exibição de filmes. Sobre isso, percebe-se que, como a busca por tal lazer aumentou, de acordo com dados do “site” “Meio e mensagem”, as empresas exibidoras estão cada vez mais visando ao lucro em detrimento de uma diversão e interação pública. Isso ocorre, segundo o pensador Karl Marx, graças à busca excessiva por capital (dinheiro), tornando o cinema apenas como um “lugar lucrativo”. Desse modo, a democratização do acesso a esses locais torna-se distante da realidade vivida.

Portanto, cabe ao Governo investir em projetos que facilitem o acesso ao cinema, principalmente nas regiões interioranas, por intermédio do auxílio financeiro a empresas exibidoras, a fim de descentralizar os lugares em que há transmissões de filmes. Outrossim, compete às ONGs, como organizações que visam suprir as necessidades populacionais, realizar campanhas em prol de salas bem estruturadas e de reduções do preço cobrado pelos ingressos das sessões cinematográficas, por meio das redes sociais e dos outros veículos de comunicação, com o objetivo de democratizar a ida ao cinema e de, dessa maneira, afastar-se da realidade narrada no filme “Cine Hollyúde”.

Texto como o INEP publicou, com os desvios do participante.

Ver como o INEP publicou Redação de Gustavo Lopes Teixeira na cartilha do INEP
Comentário da banca

O participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa, uma vez que a estrutura sintática é excelente e há presença de apenas um desvio ao longo do texto: a concordância em “todos os cidadão”, no primeiro parágrafo.

Em relação aos princípios da estruturação do texto dissertativo-argumentativo, percebe-se que o participante apresenta introdução em que expõe seu ponto de vista, desenvolvimento de justificativas que comprovam esse ponto de vista e conclusão que encerra a discussão, demonstrando excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo. Além disso, o tema é abordado de forma completa, o que revela uma leitura cuidadosa da proposta de redação: o participante apresenta o problema em discussão já no primeiro parágrafo, enfatizando sua importância como alternativa de lazer. Observa-se também o uso produtivo de repertório sociocultural pertinente à discussão proposta em mais de um momento do texto: no segundo parágrafo, há a referência ao filme “Cine Holliúdy”, o qual tem a função de exemplificar a ausência de salas de cinema no interior do país; no terceiro parágrafo, o participante apresenta um argumento de autoridade, na figura de Karl Marx, para explicar os altos valores dos ingressos para o cinema.

Ao longo da redação, há a presença de um projeto de texto estratégico, com informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, desenvolvidos de forma consistente e bem organizados em defesa do ponto de vista. O participante anuncia, no primeiro parágrafo, as causas da falta de democratização do acesso ao cinema: falta de investimentos na área e o preço alto dos ingressos. A primeira causa é desenvolvida no segundo parágrafo, no qual se apresenta, como consequência dela, a escassez de salas de cinema em regiões mais afastadas dos centros urbanos. A segunda causa é retomada no terceiro parágrafo, no qual a elitização dos cinemas é explicada. Por fim, o participante desenvolve soluções para os dois problemas apresentados.

Em relação à coesão, encontra-se, nessa redação, um repertório diversificado de recursos coesivos, sem inadequações. Há articulação tanto entre os parágrafos (“Ademais”, “Portanto”) quanto entre as ideias dentro de um mesmo parágrafo (1º parágrafo: “dentre as quais”, “tal forma”, “uma vez que”, “Apesar disso”, “Assim”; 2º parágrafo: “Acerca disso”, “dessa realidade”, “o qual”, “visto que”; 3º parágrafo: “sobre isso”, “tal lazer”, “Desse modo”; 4º parágrafo: “Outrossim”, “dessa maneira”, entre outros).

Por fim, o participante elabora proposta de intervenção muito boa: concreta, articulada à discussão desenvolvida no texto, detalhada e que respeita os direitos humanos ao propor maiores investimentos na área, com o objetivo de descentralizar as salas de cinema e diminuir o valor dos ingressos.

Fonte: INEP, A redação do Enem 2020: cartilha do participante, página 43 do PDF, sob licença CC BY-NC (uso não comercial). Texto transcrito do PDF, com a formatação do site; o original está em “Ver como o INEP publicou”.